Costa de Caparica: bairro clandestino com 300 pessoas sem água há sete anos 
21.03.2009 - 11:30 Por Lusa
Há sete anos que o único acesso a água canalizada no bairro clandestino das Terras da Costa, na Caparica, que tem 300 moradores, fica a quase dois quilómetros.
Os moradores aproveitam o dia mundial da água para pedir um chafariz mais perto de casa, um pedido a que a Câmara de Almada e a Junta da Costa de Caparica nunca deram resposta, garantem.
"Não estamos a exigir água canalizada em casa, estamos apenas a pedir algum respeito. Não me parece que seja assim tão difícil", afirma Durval Carvalho, 34 anos, porta-voz dos moradores.
A água chega ao bairro em garrafões, à cabeça das mulheres ou em carrinhos de mão, empurrados pelas crianças e pelos homens.
Há sete anos que a boca-de-incêndio que servia o bairro foi cortada e quando os moradores tentaram abastecer-se no cemitério, que fica mais perto do que o chafariz do centro da vila, foram expulsos.
"Têm medo de que os mortos morram de sede", ironiza Durval Carvalho, representante dos moradores.
Não há electricidade, recolha de lixo nem serviços postais e, devido à falta de água, as hortas estão secas.
"Quem tem luz é de forma ilegal. A Câmara veio numerar as portas mas os correios não vêm cá e o lixo está aí à vista, ninguém vem buscá-lo", continua.
Angélica Mirrado, 71 anos, tem problemas de coração e desloca-se com dificuldade, o que faz com que tenha de pagar a quem possa ir buscar-lhe água.
"Já me prometeram tantas vezes que ia sair daqui. Tenho ratos e baratas em casa, que já está a desfazer-se e não tenho dinheiro para arranjá-la", afirma.
Os restantes moradores concordam: Lucília Gomes, 48 anos, afirma que muitas vezes as crianças vão à escola sem terem tomado banho.
"Vivemos como cães. Estamos à espera de casas há anos. Demoramos uma hora e meia a ir buscar água e voltamos exaustas, cheias de dores nas costas", acrescenta.
Nelson Martins, 20 anos, está a tirar um curso tecnológico de reparação e instalação de computadores, e não tem luz em casa.
"Tenho computador mas não posso usá-lo, é ridículo! Acontece o mesmo com os mais pequenos, que receberam computadores na escola. Aqui, tarefas simples como tomar banho ou lavar a loiça dão três vezes mais trabalho do que o normal", afirma.
Durval Carvalho sublinha que os moradores não esperam "uma obra grandiosa, para cortar fitas", e, embora admita que "o bairro há-de ir abaixo", defende que "assim não se pode viver".
O bairro clandestino das Terras da Costa existe há mais de 30 anos e é maioritariamente habitado por imigrantes cabo-verdianos.

