"Queremos trabalhar, estamos à espera que nos digam quando podemos abrir as lojas." Alcino Sousa, presidente da Associação de Comerciantes do Mercado do Bolhão (ACMB), expunha assim a incerteza quanto ao desenrolar do dia de hoje.
Ontem terminou o prazo estipulado para que a câmara realizasse obras de segurança, mas falta agora que o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) ateste que a ala sul do mercado já reúne as condições necessárias para o regresso dos lojistas. "A autarquia tem de acelerar o processo, há comerciantes com compromissos assumidos. Os prejuízos podem ser imensos", enfatizava.
Depois de um dia de reuniões, Alcino Sousa pouco mais adiantou, além de reconhecer que a edilidade terminou as obras no prazo acordado. "Disseram-nos que hoje [ontem] o mercado podia abrir. Pelo contrário, ainda reforçaram as barreiras que nos impedem de aceder à ala sul. Só falta vir o LNEC", notava.
Também prevista para ontem estava uma reunião do Movimento Cívico de Defesa do Mercado do Bolhão, adiada devido à "incerteza" que ainda subsiste. "Decidimos reunir-nos na quarta-feira. Vamos ver o que até lá acontece", explicou Jorge Pinto, porta-voz do movimento. Salvaguardando que "várias iniciativas" estão a ser ponderadas, Pinto sublinhou também que este "atraso" pode ter consequências nefastas para os comerciantes do piso superior da ala sul - uma vez que os restantes foram transferidos para a ala norte. "Há vários comerciantes talhantes, por exemplo, com encomendas feitas para manhã [hoje]. Se isto se arrastar, quem lhes paga os prejuízos?", questionava.
No piso superior da ala sul, operam 13 talhos e dois restaurantes, tendo a autarquia garantido que poderiam reabrir os postos de venda ontem, dia 22. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter um esclarecimento da Câmara do Porto.
"A culpa é nossa"
"Nós é que fomos parvos, julgámos que a câmara era uma pessoa de bem." O lamento de Otília Oliveira traduzia o sentimento partilhado ontem pelos 117 lojistas da ala sul do mercado. "A culpa é nossa, fomos na conversa da câmara, agora o resultado está à vista", reforçava esta proprietária do talho 12. Ontem, perante a permanência das barreiras de segurança que impedem o acesso à ala sul, o ambiente oscilava entre a raiva e o desânimo. "Nunca mais para lá voltamos... Olhe para aquilo, ainda cheio de ferros", apontava José Teixeira, que, devido aos trabalhos, instalou a frutaria numa das escadarias. Otília Oliveira preferia falar numa "estratégia" da autarquia. "Sim, estratégia. Querem cansar-nos, desmotivar-nos e afastar-nos os clientes, para venderem isto", suspeitava.
A meio da manhã, um funcionário municipal reforçava, com material metálico, as barreiras de segurança. "Mas, afinal, isto é para abrir ou para fechar", indagava José Silva, outros dos talhantes. Em jeito de desabafo, Otília Oliveira lançava um ultimato: "Os 15 dias esgotaram-se! Nós cumprimos com a nossa parte, a câmara que cumpra a dela. Temos de agir".


