Actividade ilegal

Catadores de papel desviam resíduos do circuito municipal

19.02.2012 - 17:31 Por Marisa Soares

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A Polícia Municipal de Lisboa autuou, desde Novembro, oito catadores de resíduos sólidos urbanos A Polícia Municipal de Lisboa autuou, desde Novembro, oito catadores de resíduos sólidos urbanos (Nelson Garrido)
A crise económica e a valorização do preço do cartão está a levar mais pessoas a apostar nesta actividade paralela e ilegal. Mas para os municípios, menos papel recolhido significa menos dinheiro nos cofres.

Quinta-feira, 21h, Avenida de Berna, em Lisboa. A carrinha de mercadorias pára em segunda fila, os três homens saem e vão directos aos contentores municipais de tampa azul, deixados à porta dos prédios e estabelecimentos comerciais para a recolha camarária. Escolhem o papel e cartão em melhor estado e arrumam o material no veículo, já repleto. O carregamento dura dez minutos, a carrinha arranca e segue para completar a ronda ao quarteirão. Para trás deixa os caixotes de lixo meio vazios e nem sinal de fardos de cartão na via pública.

A cena repete-se todas as semanas, em várias zonas da capital e do país, nos dias em que há recolha selectiva de papel e cartão. Só em Lisboa, a Polícia Municipal autuou, desde Novembro, oito catadores por exercerem uma actividade proibida pelo regulamento municipal de gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU). Por serem "recentes", os processos de contra-ordenação ainda não estão concluídos, diz a câmara. As multas podem ser de uma a dez vezes o salário mínimo nacional.

Foi no final do ano passado que, segundo a autarquia, se começou a verificar o desvio de papel. Os números falam por si: em 2011, os serviços municipais recolheram menos 12% de papel e cartão do que no ano anterior. Em Janeiro deste ano o decréscimo foi ainda mais acentuado: menos 19% em relação ao período homólogo do ano passado.

A Câmara de Lisboa atribui parte da culpa aos indivíduos que andam em busca do papel na cidade para depois o venderem a operadores de gestão de resíduos não urbanos. A actividade era aceite no passado, quando os sistemas municipais de gestão dos RSU eram ainda deficitários, mas agora é proibida. "A valorização económica deste material no mercado de recicláveis e o contexto actual de crise propiciam estas práticas", admitem responsáveis do Departamento de Higiene Urbana da autarquia. Em 2010, o preço médio da tonelada de cartão foi de 100 euros e actualmente chega aos 120 euros.

O problema não é exclusivo da capital. No Grande Porto, os oito municípios abrangidos pela Lipor (Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde) também se queixam dos desvios. Em 2011 foram recolhidos menos cerca de 9% de resíduos de papel e cartão do que em 2010.

Embora ressalve que "não existe uma causa que por si só possa justificar este decréscimo" - a retracção económica e a quebra no consumo são causas óbvias -, a Lipor acredita que a actividade dos catadores (também conhecidos por "farrapeiros") está a acentuar a diminuição. A Câmara do Porto não respondeu às questões do PÚBLICO sobre o assunto. Não se sabe se no Porto já foram multados catadores, mas em Lisboa foi reforçada a atenção policial para estes casos.

As zonas da capital que mais atraem os catadores são as Avenidas Novas, Areeiro, Alvalade, Baixa, Olivais, Alcântara, e também Benfica, Telheiras e o Martim Moniz. Aí, onde abunda o pequeno comércio e escritórios, a Polícia Municipal já autuou alguns reincidentes. "Há famílias inteiras dedicadas à actividade. Algumas vão buscar o cartão directamente aos lojistas e por isso acham que é legal", diz fonte policial. Para os comerciantes, o "crime" dos catadores compensa, pois assim não têm de pagar taxas adicionais à câmara pela produção de resíduos em grandes quantidades.

Nos autos de contra-ordenação não é identificado o operador que iria receber os resíduos. No caso dos catadores abordados pelo PÚBLICO na Av. de Berna, o papel e cartão desviados dos caixotes tinham como destino uma operadora licenciada para a gestão de resíduos não urbanos, em Frielas, Loures.

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Papelaria

Achado não é roubado! O lixo (papel cartão) está lá disposto na rua, que seja em contentores, e ...

Mauro Andrade Moura

20.02.2012 12:24

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