Casino de Lisboa quer banalizar o jogo com apostas a um cêntimo 
18.04.2006 - 07:43 Por João Pedro Henriques, PÚBLICO
Há de tudo para todas as bolsas. No novo Casino Lisboa, que abre amanhã no Parque das Nações, as apostas poderão ir de cêntimo em cêntimo nas slot machines até aos milhares de euros na sala reservada aos grandes jogadores.
Esta é, porventura, a principal novidade do novo casino, quando comparado com todos os outros que existem no país e, em particular, com os que pertencem à sua empresa proprietária, a Sociedade Estoril-Sol: será possível, nalgumas máquinas de jogo, ir apostando de um cêntimo em um cêntimo (o mínimo no Estoril, por exemplo, é cinco cêntimos).
Não é por acaso, evidentemente. O novo casino enfrenta o desafio de não canibalizar excessivamente a clientela do Estoril, a 30 quilómetros de distância. É imperativo, portanto, para que dê o lucro esperado, que sobreviva criando novos clientes. Mário Assis Ferreira, presidente da Estoril-Sol, já o disse: no que resta de 2006, espera do novo casino uma receita bruta de 70 milhões de euros. Até 2010, o objectivo é ultrapassar, nas receitas brutas anuais, os números actuais do Casino Estoril - 127 milhões de euros.
Escolhendo com cuidado as palavras, o director da nova mega-sala de jogos de Lisboa, Carlos Costa, explica ao PÚBLICO a ideia: "Queremos democratizar o jogo, torná-lo banal." Para o Estoril fica o glamour de sempre; para Lisboa, as apostas de um cêntimo. Mas não só.
Quem trabalha no Parque das Nações terá descontos
Um dos alvos preferenciais do novo casino será desde logo os milhares de "habitantes" do próprio Parque das Nações. Os que lá moram, mas também - e sobretudo - os que lá trabalham. Há milhares de escritórios na zona e, sendo assim, milhares de potenciais clientes para abastecer a nova sala de jogos. O casino estará aberto entre as 15h da tarde e as 3h da madrugada, ou seja, as 12 horas máximas que a lei permite.
Assim, criou-se algo que os responsáveis do casino decidiram designar de after office, uma espécie de happy hour mas com outro nome, para não se confundir com a "instituição" com o mesmo nome associada no Algarve ao pior do turismo britânico.
Os termos exactos deste after office estão para já no segredo dos deuses. Seja como for, não andará muito longe de uma espécie de "saldos" de uma ou duas horas, no horário imediatamente pós-laboral, para convencer os funcionários das empresas da zona que é melhor beberem um copo no casino e gastarem uns euros nas slots do que mergulharem logo no trânsito da cidade.
Aos inúmeros escritórios na zona somam-se, como potenciais alvos da "cobiça" do casino, os quatro hotéis que já existem e outros três que estão a ser construídos no Parque das Nações. A proximidade do aeroporto da Portela, pelo menos enquanto existir, leva os responsáveis da nova sala de jogos lisboeta a acreditar que também será possível cativar uma fatia importante do turismo de negócios que passa pela cidade. No Casino Lisboa lá estará, à espera desses e de outros clientes, no edifício central, o Arena Lounge - aqui todos os nomes são em inglês, turismo oblige. Em termos de instalações, é talvez a principal novidade do novo casino. Trata-se de um bar circular, funcionando em três anéis concêntricos, onde todos vão girando em sentidos opostos. Ao centro, um pequeno palco circular onde poderão ir actuando grupos musicais. Tudo está montado para admitir também actividades circenses, trapezistas pendurados no tecto, etc.
Aqui, como no Estoril, haverá uma aposta forte nos espectáculos, a realizar no Auditório dos Oceanos, com capacidade para 642 lugares. Já há programa definido até Novembro deste ano.
A isto há que somar, em termos de oferta de refeições, três restaurantes, cujos preços vão dos 15/25 euros (no Átrio, um serviço buffet) até ao muito caro (no Pragma, com pratos assinados por Fausto Airoldi, ex-restaurante Bica do Sapato). Nas salas de jogo também estão instalados balcões para serviço de bebidas, mas aí é pegar e circular: locais para o jogador se sentar só mesmo frente às slots (800, no total) ou mesas de jogo (22).
Metade das receitas vai para "impostos"
Um casino é algo de tal forma lucrativo que os seus donos aceitam, em termos de taxação fiscal, condições impostas pelo Estado que mais nenhuma empresa teria condições de aceitar. O número a fixar é muito simples: por cada euro de receita bruta, metade irá para o Estado. Note-se: receita bruta, não lucro, que é o que, por exemplo, define o IRC que as empresas pagam.
O contrato de concessão assinado entre o Estado e o presidente do grupo a que pertence a Estoril-Sol, o magnata do jogo de Macau Stanley Ho, obriga a que 50 por cento das receitas brutas do novo Casino Lisboa sejam encaminhadas para os cofres do Estado. Teoricamente não há meios de fugir, porque a Inspecção-Geral de Jogos está instalada no próprio casino, a tempo inteiro, dispondo de meios electrónicos de monitorização dos jogos e, portanto, das respectivas receitas.
Além do mais, a Sociedade Estoril-Sol pagou 30 milhões de euros para obter a concessão, a que teve de acrescentar mais de cem milhões de euros para comprar o Pavilhão do Futuro (de que quase só sobra uma escada rolante), construir o novo casino, comprar um parque de estacionamento em frente (ao todo, haverá 600 lugares) e formar os 500 novos funcionários.
As expectativas de receitas já se sabe quais são: até 2010, ultrapassar os 127 milhões de euros por ano que, actualmente, constituem as receitas brutas do Casino Estoril. Isto significa, em número de clientes, visitas médias diárias de seis mil pessoas, subindo para dez mil aos sábados e domingos. Os dados estão lançados.
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