Câmara do Cartaxo não vai respeitar ordem do Governo para encerrar empresa ilegal

30.09.2010 - 09:22 Por Jorge Talixa, Marisa Soares
Secretário de Estado da Administração Local ordenou, por despacho, encerramento imediato da Casa das Peles, uma das 20 maiores empresas de região, que emprega 100 pessoas.
A Câmara do Cartaxo decidiu, por unanimidade, não encerrar o complexo comercial da Casa das Peles, não acatando assim um despacho do secretário de Estado da Administração Local, José Junqueiro, que há dois meses ordenou o encerramento imediato daquelas instalações, que violam o Plano Director Municipal do Cartaxo.
O líder da maioria PS que governa a autarquia alega que quer preservar 100 postos de trabalho naquela unidade e que é possível ultrapassar as irregularidades urbanísticas, através da revisão do PDM, que está actualmente em curso. "Vamos prosseguir com a legalização do complexo", diz o presidente da câmara, Paulo Caldas - que é arguido num processo-crime por causa deste caso - acrescentando que "não faz sentido encerrar uma das 20 maiores empresas da região". A autarquia vai agora recorrer da decisão de José Junqueiro para o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira.
"Não compreendo a decisão de José Junqueiro", critica o autarca. O encerramento do complexo foi proposto pela Inspecção-Geral da Administração Local (IGAL), depois de, numa acção inspectiva realizada em 2008, se ter detectado que a Casa das Peles está instalada "de forma irregular, em local onde não é permitida a construção e o funcionamento de estabelecimentos comerciais", refere o gabinete de José Junqueiro, ontem, numa nota por escrito enviada ao PÚBLICO.
Empresa instada a legalizar
No PDM aprovado em 1997, os terrenos ocupados pela fábrica e lojas da Casa das Peles estavam classificados como zona agrícola e florestal. Paulo Caldas sustenta que o processo, que teve início nos mandatos dos seus antecessores (Conde Rodrigues e Francisco Pereira), ficou "inquinado" devido a um erro na classificação das referidas áreas.
Porém, nos seus mandatos (lidera a autarquia desde 2002) a empresa foi instada a legalizar a situação e foram dados passos nesse sentido. "No final de 2009, o município encetou uma alteração simplificada do PDM", frisa o autarca, que acredita que "a legalização da Casa das Peles e de outros dez complexos comerciais deverá estar concluída até ao final do ano".
Em resposta às questões do PÚBLICO, o gabinete de José Junqueiro esclarece que "a decisão de encerrar ou não encerrar o estabelecimento comercial em causa é, nos termos da lei, da exclusiva competência do presidente da Câmara Municipal do Cartaxo". E acrescenta: "A eventual não-reposição da legalidade é da competência do Ministério Público". Este é, de acordo com José Vieira de Andrade, especialista em Direito Administrativo, o órgão com poder para avançar com um processo judicial contra Paulo Caldas - como, aliás, já acontece.
Fecho seria "desastroso"
O encerramento da Casa das Peles seria "desastroso" para a região, diz o autarca. O complexo comercial envolve investimentos superiores a 3,5 milhões de euros e movimenta, anualmente, negócios na ordem dos 10 milhões de euros. "Tendo em conta a situação do país e as altas taxas de desemprego, não posso acatar a decisão da secretaria de Estado", explica.
O recurso ao ministro da Presidência foi a hipótese escolhida para impugnar o despacho de José Junqueiro. "Este recurso é facultativo", explica Vieira de Andrade. Por isso, "se for recusado, em rigor, não acontece nada". Ainda assim, diz a autarquia, a IGAL ameaçou avançar judicialmente no sentido da demolição do estabelecimento, caso a ordem de encerramento não seja acatada.
O PÚBLICO contactou a empresa em causa, mas não havia ninguém da administração disponível para falar.

