Ninguém sabe quantos são, apenas que se notam onde o consumo de drogas é maior. As autarquias vão desenhando estratégias para lidar com eles. Aos olhos dos automobilistas, assumem dimensão de problema social. Expulsá-los das ruas pode ter efeitos perversos, avisam os especialistas.
Rui Rio tinha um sonho. Ele queria ser o presidente de câmara de uma cidade com ruas imaculadas de arrumadores de automóveis. Queria e dizia que podia: "Não posso acabar com a prostituição, porque é um problema que dura há séculos. Mas com os arrumadores de carros, sim", disse Rio em 2002, quando o programa Porto Feliz, que pretendia retirar os arrumadores das ruas enquanto lhes oferecia tratamento para a toxicodependência, já começava a desenhar-se. Dois anos depois, em Lisboa, Santana Lopes apresentou uma estratégia diferente: propôs que os arrumadores passassem a precisar de uma licença, celebrando com eles contratos de prestação de serviços. O objectivo era confinar a área de acção ao mesmo tempo que controlava o número de pessoas nesta actividade.
Foi no Porto e em Lisboa que surgiram os primeiros arrumadores de automóveis do país, os inventores da fórmula, no início da década de 90. E é lá que continuam a notar-se mais, porque são os sítios onde o tráfico de heroína e cocaína é mais expandido. Mas o "fenómeno" foi-se estendendo um pouco por todo o país e hoje os homens da moedinha são uma preocupação para quase todas as autarquias e ganham dimensão de problema social aos olhos de muitos automobilistas.
Luís Fernandes, psicólogo e estudioso do assunto, acabou agora um estudo para a Câmara de Guimarães. Pediram-lhe que fizesse uma análise aos consumos problemáticos de drogas na cidade e o investigador esbarrou nos arrumadores de carros. Não quer dizer que os toxicodependentes sejam todos arrumadores, mas grande parte dos arrumadores são toxicodependentes. Esmagadoramente homens, portugueses e imigrantes clandestinos, oriundos de famílias desestruturadas, com passagens em vários empregos precários.
É este o perfil que o psicólogo traça. A droga é quase sempre a vida deles e a heroína e a cocaína não se coadunam com um emprego - "As ressacas são fortes, um indivíduo não acorda a horas para ir trabalhar", explica Luís Fernandes. Um dia, já sem saída, "perdem a vergonha e dizem que precisam fazer-se à vida. É uma forma de obter dinheiro para as drogas por uma via pacífica", nota.
O que ninguém sabe explicar é onde termina a liberdade de estar na rua a arrumar carros e começa a liberdade do automobilista de recusar a ajuda. Em Portugal não há uma estratégia global para conviver com este fenómeno, para além do Decreto-Lei n.º 310/2002, que tenta disciplinar a actividade, atribuindo às autarquias a competência de licenciar os arrumadores, dando-lhes dísticos anuais e definindo zonas de trabalho. A eficácia da medida não está provada - e está longe de gerar consenso.
A cidade do Porto Feliz
No Porto não há um único arrumador licenciado. Com o programa Porto Feliz, em parceria com o Ministério da Saúde, Rio deu um veredicto aos arrumadores. Falou em acção social, em tratamento contra a toxicodependência e oportunidades de emprego, mas avisou: "Não podem é andar na rua a perturbar os outros." Foram cerca de cinco anos de programa, entre 2002 e 2007. Houve quem falasse em repressão - "Foi um despesismo e uma perseguição a estas pessoas", diz Luís Fernandes -, mas a autarquia reclama ter conseguido retirar cerca de 500 pessoas da rua.
O corte do financiamento do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) precipitou o fim do programa, mas de tempos a tempos o social-democrata lembra que não esqueceu o problema: "A questão é que, tal como no passado, o IDT assumiu, sem vergonha, a sua incompetência e nada de eficaz consegue fazer. Os arrumadores voltaram e a sua ausência de perspectiva de vida regressou", disse Rio no discurso que fez recentemente na comemoração dos nove anos de mandato na autarquia portuense.


