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Escavações feitas em Agosto, em Beja, permitiram encontrar novos vestígios

Arqueólogos encontraram pegada no maior templo romano do país

24.09.2010 - 09:14 Por Carlos Dias

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Contornos do antigo edifício estão bem definidos: 30 metros por 19,40m Contornos do antigo edifício estão bem definidos: 30 metros por 19,40m (Foto: DR)
Tem o tamanho de um pé de uma criança e foi descoberta numa placa de barro, no Alentejo. Um tanque de água, do tempo do primeiro imperador, foi a última surpresa para os arqueólogos.

Desde 1997 e em sucessivas intervenções no centro histórico de Beja - a última terminou no final de Agosto - as equipas de pesquisa do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, lideradas pela arqueóloga Conceição Lopes, porfiaram em confirmar a descoberta de um templo romano. E conseguiram.

"Temos material suficiente para contarmos a história da cidade, desde a época romana até à actualidade", sustenta Conceição Lopes, expressando a sua convicção de que haverá mais escavações para aprofundar a informação até agora recolhida e prosseguir na descoberta de mais elementos sobre o passado de Beja que possam estar sob os entulhos.

Os oito estudantes de arqueologia que, no último mês de Agosto, consumiram parte das suas férias escolares na descoberta do templo perdido tiveram um local de trabalho marcado por vestígios de uma muralha do período do ferro, paredes meias com presença islâmica que, por sua vez, se misturava com a época medieval e, mais abaixo, em profundidade, a dimensão estratigráfica de vestígios romanos. Orientados por Conceição Lopes, decifram os sinais, interpretam as mensagens iconográficas trazidas nos entulhos revolvidos para se perceber o contexto de fragmentos de cerâmica.

O maior templo do país

A acção decorria no fundo de buraco com mais de dois metros de profundidade. E acabaram por deparar com um tijolo rectangular contemporâneo da construção do templo. Mediram-no. Tinha 45 centímetros de comprimento por 16 centímetros de largura. Interrogavam-se sobre se teria feito parte do muro, erguido com tijolos semelhantes. Enquanto o limpavam do pó e a terra, miravam o achado até que, bem vincado, observam, bem destacado numa das faces, um elo com o passado, um resquício forte, de um momento ocorrido há mil anos. Uma pegada de criança estava impressa no que fora barro fresco, quem sabe, num dia de calor abrasador. Sem o saber, a criança, romana ou indígena, antecipava com a sua pegada o que mais tarde, no século XX e XXI, viria a ser uma forma peculiar de deixar para os vindouros um testemunho em tudo idêntico ao que é deixado em Los Angeles, onde celebridades deixam as marcas de seus sapatos e mãos em placas de cimento.

No fim da última campanha de escavações, em Agosto, estavam claramente definidos os contornos de um edifício com 30 metros de comprimento e 19,40m de largura, em tudo semelhante aos templos romanos de Évora, da província espanhola de Ecija (Sevilha) e de Barcino (Barcelona). Uma surpresa esperava os investigadores: a estrutura estava rodeada por um tanque de água com 4,5m de largura e terá sido construído no final do século I a.C.. Admite-se que seja do tempo de Augusto, o primeiro imperador romano.

Aquele que passa a ser o maior templo do género existente no nosso país, e um dos maiores da Península Ibérica, encontrava-se coberto por três metros de entulho, acumulado ao longo de séculos, na sequência das várias destruições e reconstruções que Beja sofreu, idas e vindas de sucessivos invasores, ou ainda do que aconteceu no final do século XIX pelo derrube do que restava da monumentalidade de Beja, sob as ordens do conde da Ribeira Brava, em nome da modernidade.

Tudo se descobriu graças a vários azares

Os investigadores comprovaram que, afinal, o templo romano de Beja estava no local onde, em 1939, se fizera uma descoberta acidental. Na sequência da abertura dos caboucos para a construção dos alicerces do novo depósito destinado a abastecer a cidade de água, vislumbraram-se as fundações do grande templo romano, agora redescoberto.

Na altura, o achado foi interpretado pelo arqueológo Abel Viana como sendo "um templo que teria dimensões idênticas ao de Évora". Não foi demolido porque ao empreiteiro se afigurava uma tarefa dispendiosa e difícil "de tão considerável e rijo era o bloco", construído em argamassa (formigão) e apoiado no maciço rochoso a seis metros de profundidade.

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