A Câmara de Mértola lançou um alerta às autoridades competentes para que intervenham rapidamente no sentido de travar o progressivo assoreamento do Guadiana junto à vila, devido às dificuldades que coloca à navegação no rio. Jorge Pulido Valente, presidente da autarquia, diz que já avisou o Instituto Portuário de Transportes Marítimos (IPTM) e que o assoreamento artificial do rio está já a colocar em risco pessoas e bens.
"A acumulação de inertes está a tornar perigosa a navegação", assegura o autarca, revelando que, próximo de Mértola, a acumulação de sedimentos provocada pela construção da barrragem de Alqueva "já contribuiu para a formação de uma ilha" que está a pejudicar a circulação das embarcações. Pulido Valente entende que não se trata de um processo normal, frisando que ele decorre das "alterações verificadas no caudal do rio" desde que as comportas da barragem encerraram em 2002.
Desde então deixaram de se verificar as correntes torrenciais que limpavam o curso do rio dos sedimentos acumulados. Nestas condições, só a intervenção humana "pode repor as condições de navegabilidade do rio" salienta o autarca.
Um outro alerta para o mesmo problema vem da Universidade de Huelva, onde um grupo de investigadores vai iniciar um estudo destinado a avaliar a dimensão dos impactes já provocados no estuário do Guadiana e nas praias da cidade pela construção da barragem e pela consequente regularização dos caudais do rio. O trabalho da equipa que vai ser dirigida pelo prof. Juan António Morales González parte de um dado adquirido: não vai ser possível avaliar com exactidão os resultados que forem obtidos, nomeadamente quanto à dimensão dos prejuízos já causados no estuário e na zona costeira próxima, porque "não existem dados precisos sobre a situação anterior à construção da barragem".
Mesmo assim, é possível constatar os danos "irreparáveis" que ela já causou nos ecossistemas do Guadiana, afirma Morales, admitindo que "ainda se vá a tempo de atenuar os seus efeitos". De acordo com este investigador, citado num comunicado da Universidade de Huelva, a corrente do rio arrastava areia do fundo do seu leito e depositava-a no estuário. Quando a maré vazava, levava consigo uma considerável quantidade de areia que as ondas se encarregam de depositar nas praias da costa vizinha, regenerando-as.
A partir de 2002, com o fecho das comportas de Alqueva, o processo natural foi artificialmente alterado e passou a conflituar com o curso principal do rio, retendo muitos dos sedimentos que eram transportados pelo caudal. Já "não chega à costa a areia suficiente para a sua regeneração", observa António Morales, adiantando que esta situação está a provocar uma grande erosão nas praias.
No âmbito deste trabalho vão ser investigadas todas as fases do processo para determinar qual é a capacidade de transporte de sedimentos do Guadiana, qual a qualidade dos sedimentos que chegam ao estuário e que quantidade é transportada pela maré até às praias.
Há ainda o receio de que as alterações no curso do Guadiana venham a contribuir para que os ecossistemas de água doce sejam invadidos por água salgada. Com efeito, a retenção das afluências do rio na enorme barreira de betão, permitiu regularizar cerca de 80 por cento do seu caudal. Esta alteração está a influenciar directamente "a criação de espécies que vivem no estuário, como os bivalves, a sardinha e a anchova" e a dar lugar a outras espécies que têm o seu habitat a maior profundidade, como o linguado, explicou ao PÚBLICO, Luís Chícharo, professor da Faculdade de Ciências do Mar e Ambiente da Universidade do Algarve.
As descargas da albufeira, que passaram a ter um carácter regular, "têm tido um grande impacto na pesca na zona costeira" prossegue o investigador, relaçando a importância, cada vez maior, da gestão da barragem de Alqueva em função dos ecossistemas do Guadiana.


