Vamos subindo pelo interior do prédio esventrado e vazio até ao último andar. Chegamos a uma sala toda envidraçada, também deserta e abandonada, e saímos para o exterior. Corre uma brisa morna de final da tarde e a luz está a tornar-se dourada. E, de repente, vemos Lisboa como nunca a podemos ver.
Ali mesmo ao lado, à altura dos nossos olhos, está a parte de trás do Arco da Rua Augusta, com as estátuas laterais (representando os rios Tejo e Douro), recostadas a olhar melancolicamente para as obras no Terreiro do Paço. A toda a volta os telhados dos edifícios da Baixa. Ao fundo, o Jardim do Torel, de um lado, e as ruínas do Convento do Carmo, do outro, já não parecem estar em pontos mais altos da cidade. "O que é que apetece fazer aqui?", pergunta, com um sorriso de satisfação, o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa. "Jantar?", arriscamos.
É possível que daqui a dois anos já possamos jantar num restaurante no terraço da antiga sede do Banco Nacional Ultramarino, na Baixa. Para já é ainda um espaço com um velho tanque e outros objectos obsoletos no topo de um edifício magnífico em cujo piso térreo irá, no próximo dia 21, ser inaugurado o novo Museu do Design e da Moda (Mude). E o sorriso aberto de António Costa tem tudo a ver com isso: ao fim de anos de impasse, a colecção de Francisco Capelo, adquirida em 2003 pela câmara municipal e desde então guardada em armazéns (antes disso podia ser vista no Centro Cultural de Belém pré-Museu Berardo), vai finalmente ser exposta.
O Mude é uma das duas grandes apostas culturais da câmara neste ano de eleições. Bárbara Coutinho, a directora do museu, percorre o espaço ainda vazio explicando como daqui a duas semanas o piso térreo estará completamente transformado (o projecto é dos arquitectos Ricardo Carvalho e Joana Vilhena), com o majestoso balcão de mármore preto e verde iluminado por dentro e rodeado pelas 175 peças de design de moda e de equipamento que foram "protagonistas de alterações de hábitos e mentalidades ao longo do século XX" e vão ser mostradas nesta exposição inaugural. Por enquanto serão ocupados apenas dois pisos - no futuro a ideia é continuar pelo edifício acima, com outros projectos, e chegar ao terraço do topo, ideal para um restaurante.
Para António Costa o Mude não é apenas um museu - é, na estratégia da câmara, "o grande motor" para tão prometida revitalização da Baixa. Mas há outro, que o presidente da autarquia revela agora: a Moda Lisboa, a ExperimentaDesign, a Trienal de Arquitectura, o Centro Português de Design e a Agência para as Indústrias Criativas vão juntar-se num espaço comum, também na Baixa. "É uma forma de poderem ter áreas expositivas e espaços de representação comuns, zonas de cafetaria, lojas, e de poderem criar melhores condições para estabelecerem sinergias entre eles", ao mesmo tempo que contribuem para dinamizar a zona.
África nas Janelas Verdes
Para conhecermos a outra grande aposta da câmara, o centro cultural África.cont, para a arte africana contemporânea, temos que viajar para outra zona da cidade, as Janelas Verdes. Desta vez batemos à porta de um palacete amarelo, o Palácio Pombal, próximo do Museu Nacional de Arte Antiga. Vislumbramos os tectos trabalhados e os frescos nas paredes enquanto atravessamos rapidamente o local onde está instalado parte do Instituto José de Figueiredo, de conservação e restauro (que terá que sair deste espaço cuja cedência pela câmara ao Estado terminou há já dois anos), e saímos, pelas traseiras, descendo por umas escadas de ferro trabalhado até uns telhados, também estes com ar de há muito terem sido abandonados e esquecidos por todos.
Estamos, explica Costa apontando à volta, a caminhar por cima das Tercenas do Marquês, um conjunto de três edifícios ligados ao palácio e que serviam de armazéns para o Marquês de Pombal no tempo em que o rio chegava até ali e os barcos atracavam junto ao velho muro - tudo isto, muro e tercenas, está hoje completamente tapado por um horrível edifício que dá para a Avenida 24 de Julho, onde está instalada a Direcção-Geral da Administração Pública.


