Pilhagens, assaltos e dechoucaj, roubar para ser roubado 
22.01.2010 - 08:45 Por Paulo Moura, em Port au Prince
Os cinco rapazes tomam posição no passeio da Grand Rue, em triângulo. Um deles segura pelo gargalo uma garrafa partida, a zona cortante voltada para fora. Outro tem uma faca na mão, pronta a ser usada. Estão imóveis, atentos, à espera.
Em vários pontos da rua mais comercial de Port au Prince as pilhagens prosseguem, nos escombros dos edifícios que foram lojas ou armazéns. As pessoas furam pelos buracos abertos entre os pedregulhos, ou inventam sistemas para puxar as coisas, com ganchos ou cordas.
Uma vez na posse de roupas, pacotes de comida, rádios, há que enfrentar os grupos armados. Não é possível passar por qualquer rua da cidade com qualquer coisa nas mãos sem se ser roubado, se necessário à força.
Um homem corre com um saco cheio de pequenos aparelhos electrónicos, provavelmente telemóveis e transístores. Mas ao passar em frente do gang de cinco rapazes percebe que vai ter de largar tudo. Os rapazes avançam, facas e garrafas em punho, o homem corre, mas acaba por atirar o saco para o chão. O gang foge com o produto do roubo.
No Haiti, chama-se a isto dechoucaj. É uma forma de assalto com táctica e rapidez. Assume diversas variantes. A pé ou de moto, com facas ou armas de fogo, grupos pequenos ou maiores. É também um modo de vida.
É assim que actuam tanto os assaltantes privados e avulsos, como os gangs. Mas estes são a maioria. Segundo uma fonte da Polícia, cerca de 20 por cento dos assaltos que ocorrem actualmente no centro de Port au Prince são executados por pessoas que têm fome. Os outros 80 por cento são responsabilidade dos gangs organizados.
Destes, a quase totalidade é oriunda dos três bairros pobres e violentos da capital: Delmas 2, Grande Ravine e Cité du Soleil. Mas este último, Cité du Soleil, é verdadeiramente o reino os gangs. A sua acção consiste na dechoucaj, mas também em vários tipos de tráfico e raptos com pedido de resgate.
E como estas práticas são omnipresentes em qualquer zona da cidade, as pessoas são obrigadas a defenderem-se. Ninguém pode andar na rua desarmado, principalmente se for às compras, ou, agora após o terramoto, se andar calmamente pela rua a pilhar aqui e ali, ou simplesmente a tentar resgatar os seus próprios bens dos destroços da sua casa.
"É o emprego mais popular neste país, fazer segurança a pessoas e bens", explica Pierre Jean Emanuel, 36 anos, magro, de óculos escuros, bigodinho, lenço tabaqueiro vermelho ao pescoço, blusão de efeitos dourados e pistola na coxa. "As pessoas neste país são obrigadas por vezes a fazer coisas que vão contra os seus princípios", justifica ele. "E por isso é necessário haver segurança, para qualquer actividade."
Emanuel trabalha para um supermercado. Mas há quem faça segurança de grandes empresas, de pequenas lojas ou simplesmente de pessoas que precisam de ir às compras. Todos estes seguranças têm muitas armas e nenhum escrúpulo em disparar à mínima ameaça.
A polícia, por seu lado, também tem ordens para atirar a matar sobre gangs e assaltantes. A principal razão, explica um agente da Polícia, é não haver prisões para deter os criminosos.
Por isso, é normal que polícias e ladrões se envolvam em tiroteios nas ruas, ou verdadeiras batalhas, como aconteceu ontem no centro de Port au Prince. Vários grupos faziam as suas operações de dechoucaj, quando a polícia de intervenção chegou, disparando tiros para o ar. Os gangs ripostaram, e foi a guerra.
Desde que a prisão de alta segurança de Carrefour foi destruída pelo terramoto, os principais líderes de gangs fugiram, temendo-se que estejam a reorganizar-se, para levar a dechoucaj a dimensões nunca vistas.
A pressão provocada pela escassez de bens essenciais, a crescente inflação (o preço da gasolina subiu, nos últimos dias, de 25 para 120 dólares o galão), levarão a que cada vez mais pessoas se entreguem a actividades ilícitas.
Além disso, explica a fonte da Polícia, é de esperar que o aumento da dechoucaj e a libertação dos chefes de gangs faça também aumentar a prática das vinganças, que inclui execuções sumárias, na rua.
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