Maria Graça Carvalho: "Bolonha necessita de mais financiamento"

26.04.2010 - 10:29 Por Bárbara Wong, em Bruxelas
A ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior dos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes é critica em relação ao modo como o actual ministro Mariano Gago faz as estatísticas e os contratos com universidades portuguesas e norte-americanas. Há pouca transparência e muito onde investir em Portugal, defende.
Anualmente os eurodeputados podem convidar 100 pessoas para conhecer o Parlamento Europeu. Maria da Graça Carvalho escolheu actuais e ex-dirigentes estudantis, estudantes e professores da área da Energia. A selecção deve-se ao seu passado enquanto ministra da Ciência e do Ensino Superior mas também às áreas que actualmente acompanha: pertence à Comissão da Indústria, Investigação e da Energia e é suplente na Comissão dos Orçamentos. Antes de ser eleita, a professora catedrática do Instituto Superior Técnico foi conselheira principal do presidente da Comissão Europeia.
PÚBLICO Denunciou recentemente que o investimento em investigação e desenvolvimento (I&D) não é o que o Governo tem anunciado. Como é que chegou a essa conclusão?
Maria da Graça Carvalho Foi anunciado que Portugal ultrapassou o um por cento em investimento do Produto Interno Bruto (PIB) em I&D. Os dados estão na página do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) e fui lê-los. Em 2005 tinhamos investido 0,54 por cento do PIB nessa área - o sector público 0,43 e o privado 0,11 por cento. Subitamente, em 2007 o sector público sobe um bocadinho (0,54 por cento) mas o privado duplica (0,6 por cento). Tudo somado passa o objectivo do um por cento do investimento. É estranho.
Porquê?
O que se verifica no inquérito feito pelo MCTES é que o número de empresas que declaram fazer I&D aumentou. Eram 930 em 2005 e são 1500 em 2007. O sector que mais investe é o da banca e dos seguros. Trata-se de investigação própria que as empresas fazem. Acho que o inquérito utilizou uma definição mais lata do que é a investigação científica.
O Governo tem sido acusado de artificializar as estatísticas. Acha que foi isso que aconteceu?
Sim, pode ter um bocadinho disso. Parece-me estranho que os sectores financeiro e os dos seguros sejam os primeiros a investir quando não têm tradição em fazê-lo. Pode ser que seja na área informática mas só muito marginalmente é que se chama a isso investigação. E ainda que seja isso não faz sentido comparar com 2005 porque nessa altura isso não era considerado investigação. É preciso ter cuidado com a forma como se fazem estes inquéritos.
Está a investir-se menos na ciência?
Na ciência investe-se de uma forma diferente, tem aumentado ligeiramente mas com menos transparência, com contratos mistos de ciência e ensino superior com instituições internacionais onde os participantes não são escolhidos de forma transparente porque não há abertura de concursos.
Refere-se aos contratos com o MIT e Carnegie Mellon? Portugal está a financiar as universidades norte-americanas?
Portugal sempre mandou estudantes em números muito consideráveis para os EUA fazer doutoramentos através da Fundação para a Ciência e Tecnologia, com pagamento de bolsas e propinas. Nunca houve necessidade de contratualizar com as universidades e pagar-lhes quantias tão elevadas. Qual é o benefício? Há outras formas de doutorar sem ter que pagar tanto.
Se fosse ministra não o faria?
Não desta maneira. Faria acordos.
Mas estas iniciativas têm sido elogiadas internacionalmente.
Sim, mas não é preciso pagar 40 milhões ao MIT para ter doutorados.
É dinheiro que podia estar a ser investido nas universidades portuguesas?
Sim, há imenso onde investir em Portugal, por exemplo nas escolas de saúde, em infra-estruturas, em mais recursos para as instituições.
Enquanto ministra foi a primeira a fazer contratos programa com universidades e politécnicos mas é crítica em relação aos contratos de confiança que o Governo celebrou com as mesmas instituições. Porquê?

