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Mais de 300 estabelecimentos de ensino vão sair do património do Estado

Transferência de escolas públicas "abre as portas à privatização do ensino secundário"

16.02.2010 - 09:02 Por Margarida Gomes

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Sócrates na Aurélia de Sousa, no Porto, uma das escolas modernizadas Sócrates na Aurélia de Sousa, no Porto, uma das escolas modernizadas (Paulo Pimenta (arquivo))
Deputado Miguel Tiago (PCP) adverte para o cenário de privatização da própria empresa Parque Escolar, o que fará com que as escolas passem a ter uma gestão de tipo empresarial.

São muitas as reservas à decisão do Ministério da Educação (ME) de transferir a maior parte das escolas secundárias para a empresa pública Parque Escolar. À excepção da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), praticamente todos os organismos contactados ontem pelo PÚBLICO encaram esta decisão como "uma péssima medida que abre caminho à privatização do ensino secundário".

"Desta forma, a autonomia das escolas fica comprometida", critica o secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira, que vai avisando que "as escolas são espaços pedagógicos, espaços de aprendizagem, e não campos de futebol".

No mesmo registo pronuncia-se a Federação Nacional de Educação (FNE). Salvaguardando, embora, que a FNE não conhece os contornos das negociações entre o ME e a Parque Escolar, Lucinda Manuela refere que esta medida, "num futuro próximo, abre as portas à privatização do ensino secundário, o que é mau". Ao PÚBLICO, a dirigente da FNE encara a transferência do património do Estado como um "declinar de responsabilidades por parte do ministério a quem compete tratar da manutenção do parque escolar".

Já o presidente do Conselho de Escolas, Álvaro dos Santos, prefere pronunciar-se só depois de consultar os membros do conselho. "Para a próxima semana está convocada uma reunião plenária e vamos incluir este ponto na ordem de trabalhos", declarou ao PÚBLICO. Porém, vai dizendo que "o património escolar deve manter-se na alçada do Estado. É uma questão de princípio".

Pedro Araújo, que preside à Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), teme que a medida seja "uma tentativa de começar a privatizar as escolas públicas". "E, se assim for, com certeza que estamos contra, porque, como presidente da ANDE, tenho de defender a escola pública e a qualidade dos serviços que a escola pública deve prestar ao país." Já o Conselho Nacional de Educação optou pelo silêncio, remetendo para mais tarde uma eventual tomada de posição.

Quem sai em defesa da transferência das 332 escolas públicas que estão a ser modernizadas para a alçada da Parque Escolar é a Confap. O seu presidente, Albino Almeida, compara esta transferência à que ocorreu há 25 anos, quando a tutela dos edifícios das escolas do primeiro ciclo passou "para as câmaras municipais, mas sem a componente "mochila financeira"". Para o presidente da Confap, "tal como com as autarquias, nada das competências sobre o edificado escolar interfere na autonomia e gestão pedagógica e educativa das escolas. Tudo o que se disser em contrário é, no mínimo, especulativo".

O deputado do PCP Miguel Tiago, que acompanha este processo desde que foi publicado o decreto-lei que criou a Parque Escolar, não tem dúvidas que se trata de uma decisão que visa a privatização. "No futuro, será a Parque Escolar a gestora de todas as escolas e se um dia o Governo decidir privatizá-la, o parque escolar passa a ter uma gestão empresarial." E deixa uma pergunta para reflexão: "Como o Governo privatiza tudo, faz sentido termos escolas geridas do ponto de vista empresarial?".

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