A Assembleia da República, em Lisboa, foi hoje o ponto de confluência de centenas de professores — mil, segundo a polícia, e 1500 a dois mil, segundo a Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino — que antes se tinham concentrado frente ao Ministério da Educação, contra a política educativa do Governo, e ao Palácio de Belém, “contra o silêncio do Presidente da República”.
A manifestação, a última antes das eleições, foi convocada por três dos movimentos independentes nascidos da contestação ao modelo de avaliação docente, que deixaram sobretudo um apelo: “Votem em quem quiserem, menos no Partido Socialista de Sócrates”. Um cartaz resumia a ideia: “Se Sócrates se candidatar ao governo do inferno, nós votaremos no diabo”.
E se o primeiro-ministro substituir a ministra da Educação, como pareceu dar a entender em declarações recentes? “Isso a nós não nos resolve nada. A ministra disse que ele é o autor das políticas educativas”, responde Octávio Gonçalves, dirigente do Movimento PROmova, que teve origem em Vila Real. O responsável lembra que CDS-PP, PSD, PCP e Bloco de Esquerda (BE) já se comprometeram a pôr fim “à divisão na carreira” entre professores titulares e não titulares e “à suspensão do modelo de avaliação” — os dois principais motivos de descontentamento da classe. “Adeus Milú! [diminutivo porque é conhecida a ministra da Educação]”, dizia a frase de despedida estampada em várias t-shirts negras.
“Vou votar Manuela Ferreira Leite, pelo menos votamos numa que não experimentámos. Ela vai ganhar”, diz Eva Gonçalves. “Ela tem que ganhar”, reforça a professora de Português/Francês Helena Gonçalves, momentos depois de as terem tentado persuadir a votar no Bloco. A tentativa veio de André Pestana, professor de Biologia e apoiante bloquista, que não tem dúvidas de que “vai haver um número crescente de professores que votam BE”.
Muitos dos docentes com quem o PÚBLICO falou estrearam-se nas lides das manifestações, concentrações e vigílias que varreram o sector nos últimos quatro anos. “Estreei-me com o PS”, diz uma professora. A cerca de uma semana das eleições, os organizadores esperam que este último protesto sirva de “lembrete” ao primeiro-ministro. “Os professores não esquecem”foi uma das palavras de ordem.


