São os piores resultados dos últimos anos. Pela primeira vez desde 2007, a média do exame nacional de Matemática do 9º ano realizado no mês passado voltou a ser negativa. E a de Língua Portuguesa sofreu uma quebra de cinco pontos por comparação aos anos anteriores.
Numa escala de 0 a 100, a média do exame de Matemática da 1ª chamada, realizado por 90010 alunos, ficou-se pelos 43. No ano passado foi 50. E a percentagem de negativas subiu para 58 por cento. Quanto a Língua Portuguesa, a média do exame da 1ª chamada, realizado por 89071 alunos, foi de 51. Nos dois anos anteriores tinha sido 56. A percentagem de negativas subiu para 43,6 por cento por comparação aos 29,7 de 2010. Nesta disciplina foi o segundo pior resultado em sete anos de exames nacionais.
Com exames mais difíceis, as associações de professores estavam à espera de uma quebra nos resultados, mas a dimensão da descida apanhou-os de surpresa. O mesmo já não se passou com o director do Gabinete de Avaliação Educacional (Gave), Helder de Sousa. No Ministério da Educação coube-lhe este ano comentar os resultados. Em resposta a questões do PÚBLICO considerou que estes “reflectem o ajustamento do nível de exigência, concretizado numa acrescida complexidade de alguns dos itens e na continuação da procura de um maior rigor na definição e também na aplicação dos critérios de classificação”.
Para Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, mais do que a descida da média geral, o que verdadeiramente preocupa é o facto de 18 por cento dos alunos (16324) terem-se ficado pelo nível 1 em cinco, não tendo conseguido obter mais do 19 por cento na prova, uma percentagem que duplica a do ano passado. Ou, mais ainda, que 30 por cento (cerca de 30000) tenham ficado com uma nota inferior a 30 por cento.
Mal preparados
O grau de exigência dos exames começou a aumentar em 2010. Os deste ano foram mais difíceis do que os do ano passado, mas em termos gerais, no caso de Matemática “o grau de dificuldade foi semelhante ao do exame de 2010 e não justifica de todo esta diferença que é muito preocupante”, frisa Miguel Abreu. Uma conclusão que se impõe, segundo ele: “Cerca de um terço dos alunos que fizeram o exame chegaram ao final do ensino básico muito mal preparados”.
A percentagem de negativas no exame de Matemática deste ano esteve longe das registadas nos primeiros três anos dos exames nacionais do 9º ano. Entre 2005, o ano de estreia, e 2007, ficaram acima dos 60 por cento e em dois anos ultrapassaram os 70 por cento. A presidente da Associação de Professores de Matemática, Elsa Barbosa, lembra este ponto de partida: “As provas eram muito mais acessíveis, mas os resultados foram muito mais catastróficos”.
Esta professora considera positiva a opção de elevar o nível de exigência das provas, correspondendo deste modo, segundo diz, ao caminho entretanto feito para a melhoria das aprendizagens. Uma aposta que se iniciou precisamente depois do toque a rebate provocado pelos resultados de 2005.
Mas os resultados deste ano mostram que ainda não foi suficiente: “Por comparação a anos anteriores, quando as provas mais fáceis, os alunos melhoraram. Sabem mais. Mas tendo em conta o patamar de onde partimos, não conseguimos responder ao grau de exigência pedido este ano. O que quer dizer que há um longo caminho ainda a percorrer”, constata Elsa Barbosa.
Mais horas de aulas
E esse caminho passa, necessariamente, por atribuir mais horas ao ensino da Matemática. O que é também pedido pela presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira. O reforço destas disciplinas consta do programa do actual Governo. Segundo aquela docente, os resultados deste ano só vêm reforçar que esta é uma medida que não pode ser adiada por mais tempo.
Edviges Ferreira reafirma que a prova foi adequada e estava elaborada correctamente. Mas lembra que o programa actual não é adequado ao tipo de provas de exame que têm sido propostas: “Dois terços do tempo lectivo do 9º ano são dedicados aos Lusíadas e ao Auto da Barca do Inferno. Não há tempo para treinar a escrita e para o treino da língua".


