Responsável do MIT critica separação entre universidades e indústria em Portugal

10.12.2007 - 10:13 Por Lusa
O director do Centro para Transporte e Logística do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Yossi Sheffi, criticou a total separação entre o meio académico e a indústria em Portugal, considerando as universidades “muito conservadoras” e “pouco práticas”, pelo que defendeu uma “urgente” mudança de mentalidade.
“Em Portugal, como no resto da Europa, há uma total separação entre o meio académico e a indústria, mas penso que o problema não são as empresas e sim as universidades”, disse em entrevista à agência Lusa o director da divisão de Sistemas de Engenharia e do Centro de Transportes e Logística do MIT.
As instituições académicas portuguesas “não são o número 1”, sublinhou o professor, apesar de as considerar “muito boas e com uma sólida base científica”, embora marcadas por “conservadorismo, demasiada concentração na publicação dos ‘papers’ (ensaios) e pouca predisposição para a mudança”.
“Precisamente por não serem o número 1, podem mudar, há uma razão para fazer algo de diferente. Têm de começar a trabalhar em conjunto com a indústria, a criar especialistas em engenharia, incluindo mais e mais investigação”, avisou Yossi Sheffi, que não minimiza as “dificuldades” inerentes.
Contudo, lembra também os “resultados extraordinários” que tal atitude potencia, não só a nível do conhecimento e educação, mas também de um significativo crescimento económico.
Dar mais aos estudantes
Segundo o responsável, as universidades podem dar “bem mais aos estudantes”, começando por lhes mostrar que “o trabalho com as empresas é importante”, não se resumindo à publicação de ensaios, à leitura ou à definição teórica da profissão de engenheiro, que acaba por não dar um contrato de trabalho a ninguém.
“O que interessa o que é ou não a engenharia? Nada. Não interessa qual a etiqueta que se põe no problema, não interessa qual o ensaio que se vai publicar. A única coisa que interessa é a solução para o problema”, frisou Sheffi, acrescentando que “esta visão é minoritária” em Portugal.
Segundo Sheffi, esta realidade está a acontecer não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, dando como exemplo “os livros e livros” que são publicados nos EUA sobre Business School, que nada têm a ver com “business”, ensinando apenas a teoria.
De acordo com este especialista, as universidades não publicam actualmente algo de diferente, pelo que os estudantes só precisam de fazer “mais do mesmo, mas apenas um bocadinho melhor” para publicar algo.
“Universidades portuguesas deviam ser mais práticas”
Baseando-se num estudo publicado recentemente nos EUA, Sheffi considera que as comunidades científicas estão cada vez mais limitadas.
“O estudo refere que, por exemplo na indústria farmacêutica, há vários cientistas a trabalhar em empresas sem inventar tantos medicamentos, como costumavam há 20 anos, porque estão mais interessados em publicar ‘papers’ e ouvir os seus ecos”, contou.
Razões mais que suficientes para Sheffi defender uma mudança de mentalidade e da cultura de engenharia.
“As universidades portuguesas deviam ser mais práticas, mais abertas e incluir mais do que aquilo que fazem. Aqueles que parecem problemas de mera engenharia, incluem muitas vezes na solução aspectos de outras áreas, pelo que é importante introduzir isto na investigação e educação”, alertou.
Para tal, acrescentou, os engenheiros têm de perceber que devem trabalhar em equipa com advogados, psicólogos, sociólogos, historiadores, designers, gestores e “por aí fora”.
“Em suma, têm de saber como estas pessoas pensam, compreender as diferentes maneiras de resolver os problemas”, disse.
Ingredientes da mudança
Contudo, Portugal reúne “uma série de ingredientes” para poder mudar.
“Portugal pode ser um centro de excelência de engenharia em educação e investigação. Por ser um país pequeno, com tradição para estabelecer laços com o resto do mundo, tem oportunidade para que o governo, as indústrias e as instituições académicas possam trabalhar em conjunto”, salientou.

