Escola Secundária António Arroio

Reportagem: “Os professores estão chateados com o ministério e nós é que sofremos”

07.07.2009 - 20:42 Por Romana Borja-Santos

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As notas da primeira fase dos exames nacionais foram divulgadas hoje As notas da primeira fase dos exames nacionais foram divulgadas hoje (Paulo Ricca (arquivo))
Os chinelos e as toalhas de praia podem voltar mais umas semanas para o armário. Na Escola António Arroio, em Lisboa, “as pautas estão desastrosas”, em especial a Português. A maioria dos alunos desta escola de artes, quando olha para as notas dos exames nacionais do ensino secundário, acaba por seguir cabisbaixo para a secretaria. É hora de pedir uma revisão das provas para tentar subir a nota e, nos casos mais graves, de começar a estudar para a segunda fase.

“Lá se foi a praia”, admite Eunice enquanto limpa as lágrimas dos olhos e tenta nervosamente contactar uma amiga em Paris para lhe transmitir as más notícias. Vão ambas repetir exames. “As notas aqui estão desastrosas. Tenho a certeza que os professores que corrigiram interpretaram mal os critérios de avaliação. Tinha 16 a Desenho e fiquei com 11. Assim não entro em Design em lado nenhum”, desabafa.

Uma opinião partilhada por Mafalda, uma aluna de 18 a Português e que perdeu quatro valores nos exames nacionais. “A pauta está muito baixa... não sei o que falhou”. Mafalda não sabe mas Manuel que tinha 20 e que teve 9,5 tem uma teoria: “Os professores estão chateados com o ministério e nós é que sofremos. Os que sabiam analisar poesia e Pessoa não passam e os que põem as cruzinhas no sítio certo têm bons resultados”.

A tese da conspiração é também admitida a medo por uma docente que nos corredores aconselhava os seus alunos a pediram uma revisão de prova: “Verifiquei que todos os bons alunos que vieram do mesmo corrector tiveram uma má nota.” E os maus resultados revelados hoje adensam as filas para a secretaria onde o tempo de espera é longo. O cenário é negro mesmo antes de se saberem as notas de Geometria, que estão atrasadas e só são divulgadas a meio da tarde. “Aviso: as classificações da disciplina de Geometria Descritiva A estão dependentes da confirmação do Agrupamento de Exames. Serão afixadas ainda hoje”, lia-se numa parede.

Vale uma viola trazida por um dos alunos, que pretendia fazer a festa e acabou a tocar uma música melancólica que tenta a custo elevar os ânimos. Uma melodia que não se consegue sobrepor às justificações que os alunos dão aos pais - ora pessoalmente ora por telemóvel - nem às mensagens escritas para os amigos que não puderam vir. Os cigarros fumados à porta da escola também não escondem o desânimo e o nervosismo. No café Bel´Arte, em frente à escola, a algazarra não é a do costume. As lágrimas, essas não fazem qualquer cerimónia em pintar os narizes de vermelho nem em borrar a maquilhagem daqueles que gostavam de passar um borrão por cima das provas.

Greve às férias

Algumas imagens feitas ao longo do ano e afixadas nas paredes do átrio principal da escola – onde se vê a representação de vários alunos sentados – traduzem o estado de espírito destes candidatos ao ensino superior a quem resta apenas esperar. Mas há um desenho que salta mais à vista: nele vê-se um rapaz sentado a ler um livro mas com um olho a fugir para uma bola de basquetebol que o puxa para as férias. Contudo, é tempo de (re)começar a estudar para a segunda fase que arranca já na próxima segunda-feira. Mas não para todos. Mariana precisa de uma nota melhor mas já está a trabalhar. “Não posso pedir mais folgas para vir repetir o exame”, explica. Resta-lhe fazer figas para que uma nova avaliação da prova de Português consiga transformar o seu nove em dez.

Do lado dos pais as preocupações também são muitas. A filha de Filomena garantiu-lhe que o exame de Português tinha sido fácil. Por isso, precisou de olhar várias vezes para a pauta para confirmar que tinha tido apenas um dez. “Talvez por ser uma escola artística não estejam tão bem preparados a esta disciplina”, arrisca Filomena.

José tem 49 anos e também é pai. Mas hoje os nervos eram mesmo para si. Decidiu recomeçar a estudar para tentar seguir Cinema ou Pintura na universidade. “Não passei a Português e já pedi revisão de prova. Não estava mesmo a contar com isto, até porque saiu Felizmente há Luar no exame e eu estava muito à vontade”, assegura. E deixa algumas críticas ao Ministério da Educação: “Não procurei o facilitismo do programa Novas Oportunidades. Trabalhei e estudei ao mesmo tempo durante três anos e passei várias noites sem dormir. Estou essencialmente chateado por as coisas estarem tão subjectivas e mal feitas”.

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(Vejam só esta Docente). A tese da conspiração é também admitida a medo por uma docente que nos ...

Manuel Crúzio

11.07.2009 00:52

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