Dizem que a escola e os pais são parte do problema e que o facto de não lhes ensinarem nada sobre política contribui para que eles voltem costas. Mas as coisas não têm que ser assim.
Não foi uma, mas quatro vezes que os alunos da antiga escola secundária de Linda-a-Velha, agora rebaptizada com o nome de Professor José Augusto Lucas, mostraram este ano que, afinal, a política é algo que pode mexer com eles.
Por iniciativa de três alunos do 12.º ano, Santana Lopes, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa e Paulo Portas foram à escola falar sobre as razões do desinteresse dos jovens pela política, o tema que João Louro, Gonçalo Poejo e Miguel Nunes, de 18 anos, se propuseram desenvolver no âmbito da cadeira de Área de Projecto. Das quatro vezes, mesmo quando as sessões decorreram à tarde, período em que a escola habitualmente se encontra meio deserta, o anfiteatro de 100 lugares transbordou para os corredores. E as perguntas não faltaram.
Anabela Baptista, a professora que acompanha este projecto, diz que é raro tal acontecer. "Fiquei muito admirada com a mobilização para estas acções, mas isto o que mostra é que eles não são tão desinteressados como se diz", admite, durante uma visita que o PÚBLICO fez à escola, a convite dos mentores do projecto.
O que se passou acabou por provar o que eles também já suspeitavam: que a escola é parte do problema. "Só na disciplina de História é que se dão algumas noções, e muito pouco, do que é a política e de como funcionam as instituições. E esta disciplina é só para os alunos de Humanidades", constata João Louro.
Miguel Nunes considera que se passa com muitos jovens o que também acontecia com ele: não se interessam porque, em primeiro lugar, desconhecem quase tudo sobre a política e os partidos, a começar pelas diferenças que existem entre eles. A escola não os informa e, na maior parte dos casos, os pais também não, frisa.
Uma ajuda inesperada
É uma realidade que lhes passa ao lado, como aliás também sucede a grande parte do mundo adulto. Suze, que é da turma deles, confirma: "Os jovens não entendem nada sobre política". Mas, apesar de peremptória nesta constatação, não deixa de estranhar que assim seja: "Nós somos o futuro do país e o que está a acontecer vai-nos afectar. Diz-nos respeito".
A turma está a ter Português. Andam às voltas com José Saramago. A aula é interrompida, já perto do fim, para que outros falem ao PÚBLICO sobre política e sobre os políticos que este ano passaram pela escola. "São figuras públicas e tínhamos delas uma ideia de serem um bocado inatingíveis. Mas afinal estiveram connosco, na nossa escola. Não estávamos à espera que isso acontecesse", diz Catarina.
Também por iniciativa dos três organizadores, a turma teve direito a lanche particular com os dirigentes partidários que responderam ao convite. Aconteceu depois dos debates no auditório e muitos deles aproveitaram para pedir conselhos sobre o que fazer depois. O secundário, para eles, está a acabar e o tempo agora é de escolhas: seleccionar os cursos para os quais se tem média, optar entre faculdades. Dizem que Santana Lopes, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa e Paulo Portas não se furtaram a responder às suas dúvidas e a dar-lhes indicações sobre este seu futuro próximo.
No princípio do ano lectivo, um inquérito que realizaram na escola deu conta de que, numa escala de 1 a 10, a média de interesse pela política entre os alunos ficava-se pelos 3,7. Agora vão fazer um novo inquérito para tentar aferir se entretanto houve uma evolução. "Pode ser que deixem a semente na escola", admite a professora que os tem acompanhado.


