María Jesús Álava Reyes, psicóloga

“Os pais que não dizem ‘não’ estão a criar um filho egoísta e inseguro”

04.03.2010 - 10:30 Por Bárbara Wong

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 (Daniel Rocha)
A autora do livro “O não também ajuda a crescer”, María Jesús Álava Reyes, diz que as crianças de hoje são menos felizes. E que por isso os pais têm que esforçar-se muito mais para ajudá-las.

Se a criança partir um braço vai ao médico, se tem problemas de comportamento ou aprendizagem escolar deve ir ao psicólogo, defende María Jesús Álava Reyes, psicóloga espanhola e escritora de best-sellers como “A Inutilidade do Sofrimento”. Mas, antes disso, é preciso incutir-lhe regras, diz. No início do mês Álava Reyes esteve em Lisboa para falar sobre “O não também ajuda a crescer”, publicado pela Esfera dos Livros, a pensar nos pais que passam pouco tempo com os filhos e que, por isso, lhes fazem todas as vontades. Hoje é mais difícil educar, alerta.

PÚBLICO – Quais são os princípios básicos na educação?

MARÍA JESÚS ÁLAVA REYES – Todas as crianças são diferentes, cada uma é única e singular e não é possível tratar a todos por igual. Mas todas as crianças precisam de normas, regras e limites se queremos que cresçam livres e seguras.

P. – Por que é que o “não” faz parte da educação?

R. – Muitos pais não querem educar os seus filhos como foram educados e isso está bem, mas tem sido um erro não lhes dizer “não”. As crianças precisam do “não” para crescer, precisam que lhes digam o que devem ou não fazer. Elas gostam de experimentar os pais, testam-nos para ver até onde podem ir. Os pais que não dizem “não” estão a criar um filho muito egoísta e muito inseguro.

P. – Os pais não correm o risco de estar sempre a dizer “não”?

R. – Se os pais dizem “não” e a criança não obedece, esse “não” não tem qualquer valor. Quanto menos dissermos “não”, mais este tem eficácia. Há crianças que nascem com temperamentos muito difíceis, mas os pais são os que melhor podem ajudá-las.

P. – O “não” precisa de ser explicado?

R. – Não, porque a maioria das vezes as crianças sabem muito bem o que têm ou não que fazer. Se o “não” é explicado, o filho ri-se dos pais, porque o objectivo era chamar a atenção e conseguiu-o. Por vezes, muitas palavras perdem o sentido, são os actos que têm mais valor. Os pais dizem e explicam e, na próxima vez, não voltam a explicar mas dizem apenas: “Lembra-te que te disse...” Os pais que explicam constantemente são os que perdem muito a sua autoridade.

P. – Porquê?

R. – Porque a criança está a brincar, está a gozar com os pais. Ela sabe bem que não deve fazê-lo, mas faz. “Come mais depressa”, pede o pai, e a criança diz que não, que não tem fome, que não quer, que não gosta... Vale a pena falar com ela e ouvir, mas quando a norma já foi estabelecida e a criança a conhece não é preciso explicá-la, porque já a sabe.

P. – O “não” vai mudando à medida que as crianças vão crescendo?

R. – Na adolescência o “não” é muito diferente porque essa é uma fase mais provocadora. Os pais não têm que cair nunca nas provocações dos adolescentes, devem manter-se calmos e firmes. Quando o adolescente não concorda e argumenta é muito melhor falar olhando-o nos olhos, para que seja muito claro que é aquilo que tem que fazer. Se é “não”, há que cumprir, sem cair nas provocações. Num confronto, se os pais tentam explicar ao adolescente algo que ele já sabe, quase sempre quem ganha é o adolescente e não o adulto. Com o adolescente é preciso ser coerente. “Se não te deixo sair, não sais, sabes perfeitamente que tiveste negativa e não podes sair.”

Cuidado com os pedidos de desculpa

P. – Não se discute?

R. – Nunca, porque quem perde é o adulto. O adolescente é mais agressivo e perseverante. Há que mostrar-se tranquilo, firme, seguro e com controlo emocional. Ele tenta que os pais percam a calma: “Porque eu não pedi para vir ao mundo, a minha vida é uma merda”, ele provoca e os pais mantêm a calma.

P. – Mas nem sempre é fácil. Por vezes, os pais perdem a paciência...

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