Notas dos exames desiludem em Lisboa, mas férias e escolhas para o próximo ano fazem esquecer o tropeção

14.07.2009 - 12:31 Por Romana Borja-Santos
São onze horas em ponto. Na Escola Delfim Santos, em Lisboa, das notas dos exames nacionais do 9.º ano nem sinal. A agitação de mesas e cadeiras a mudarem de sala e a atravessarem o pátio do recreio faz crer que o novo ano lectivo está a querer começar sem este ter terminado. O ar impaciente dos pais contrasta com o dos alunos, que ironizam com a situação. "A qualquer momento são 11h00. Estamos todos à espera das 11h00", brinca um rapaz, perante os olhares agrestes que alguns atiram aos pulsos. O relógio já marca 11h30 e a ansiedade e o calor apertam.
A esperança surge minutos antes do meio-dia, nas mãos do presidente do conselho geral da escola. Amílcar Santos traz as pautas. As folhas tão aguardadas - e que ditam uma mudança de escola para os que passam para o 10.º ano - são meticulosamente alinhadas com pionés no placard de cortiça. "Turma A... Turma B...", anuncia, à medida que os alunos se vão aproximando para vislumbrarem as notas e proclamarem a abertura oficial das férias de Verão (ou o início de um sermão por parte dos pais). "Parecem caramujos", exclama o docente.
Uma professora que passa pelo "rebanho" - abrigado do sol, no átrio onde são colocadas as notas, coberto por um telheiro metálico - comenta: "O Rui veio cá ver as boas notas. A maior parte dos que cá estão é dos que já estão passados. Infelizmente, são poucos esses casos".
"Aprovado, aprovado"
Dos 116 alunos que foram a exame, 26 tiveram nota negativa a Matemática e 22 a Português. É o caso de Adriana. "Andei todo o ano sem fazer nada e agora já fui tarde", diz a aluna, acompanhada pela mãe, que prefere ver o lado menos mau da situação. "Durante todo o ano, andou a brincar com as notas. Mas eu também chumbei no 9.º ano e, às vezes, chumbar pode ser uma boa lição", defende Filomena.
Depois dos gritos estridentes de "aprovado, aprovado", aqueles a quem a pauta deu luz verde para o ensino secundário iniciam uma nova fase de dúvidas, angústias e nervosismo, que terão de enfrentar com muitas borbulhas no rosto. Vão mudar de escola e não sabem o que querem ser no futuro. "Vais para que área?", pergunta uma rapariga vestida a rigor para a praia. "Eles não me vão rejeitar na outra escola por não ter as vacinas em dia, pois não?", acrescenta a amiga. Mas há também alunos decididos: "Quero ir para a Marinha, como o meu avô. Gostava de ser fuzileira, sei que é pouco comum, mas tenho a certeza", conta Mariana (com uma camisola de marinheira às riscas), que, dez minutos depois de as notas terem saído, ainda não se tinha aproximado das pautas - segura das boas novidades.
Já Leonor e Jéssica gostavam de ir as duas para o Liceu D. Pedro V e traçam um plano: "Temos de combinar preencher a matrícula juntas ao telefone para ficar tudo igualzinho". Talvez venham a ser psicólogas, mas não sentem que estes exames as tenham ajudado a preparar-se melhor para o secundário. "Estes exames foram mais fáceis do que as nossas aulas e não nos preparam lá grande coisa", assegura Jéssica. Mas, antes, têm de dar uma má notícia a uma amiga: "Oh Leonor, não vais ligar à Daniela a dizer-lhe que ela chumbou no dia de anos dela, pois não?", comenta outra rapariga do grupo.
Há, contudo, quem transforme as más notícias numa oportunidade para um amor de Verão. André afasta-se um pouco para fazer um telefonema ao sol. "Queres vir fazer-me companhia à escola em Setembro? Podíamos estudar juntos. Só levantei a nota a Português. A Matemática fiquei na mesma e tu também", sussurra para a futura namorada, perante os risinhos das colegas que, enciumadas, afirmam: "Nós cá vamos ter umas 'grandas' férias".

