Dão aulas a filhos de emigrantes. Foi-lhes comunicado agora que em Janeiro já não terão trabalho: "Vi a minha vida virada do avesso"
Manuela Antunes estava a caminho de uma das escolas espanholas onde dá aulas de Português quando, na terça-feira, lhe foi comunicado telefonicamente que já não teria emprego em Janeiro. Alexandra Sousa, que é professora na Suíça e tem um filho bebé, recebeu o mesmo aviso um dia depois, também por telefone.
Em Janeiro, 49 professores que dão aulas na Europa a filhos de emigrantes portugueses já não voltarão às suas aulas na sequência das medidas de contenção orçamental adoptadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que desde 2010 tutela a rede de ensino de Português no estrangeiro. Estas aulas são asseguradas por docentes contratados e pagos pelo Estado português. Cerca de cinco mil alunos do ensino básico e secundário ficarão sem aulas de Português.
A pedido do PÚBLICO, três professoras que leccionam no estrangeiro contaram como têm sido estes dias.
Alexandra de Sousa, 29 anos, é professora de Português na Suíça desde há quatro anos. Tem 120 alunos. Percorre diariamente 100 quilómetros para lhes dar aulas, em escolas diferentes:
"Sou uma apaixonada pela profissão. No dia 30 de Novembro fui chicoteada, por telefone, com a notícia de que a minha comissão de serviço terminaria no final do mês de Dezembro. Sem reacção, sem voz, sem força para me aguentar de pé, apenas consegui perguntar quais foram os critérios para a minha selecção. A resposta foi ambígua e pouco clara. Instalei-me na Suíça com a minha família, aluguei casa, comprei carro para ir trabalhar. Fizemos projectos, tivemos cá o nosso bebé e, ainda em período de amamentação, eis a rica prenda que recebi.
Voltar para Portugal? Como posso voltar? Em Portugal não tenho escola. Em Portugal eu e o meu marido não temos trabalho. Em Portugal não temos habitação. A partir de Janeiro fico no desemprego e não sei que rumo terá a minha vida. Não sei como vou dar resposta a todos os encargos que tenho aqui na Suíça.
Esta semana tenho enfrentado os rostos revoltados, angustiados e entristecidos dos meus alunos. E, por uma vez, brotam perguntas às quais não sei responder: "quem nos vai dar aulas?"; "que vamos fazer a todo o material que comprámos?"; "se a senhora tem alunos por que motivo a mandam embora?"; "não vai pelo menos acabar o ano lectivo connosco?"; "nunca mais vamos ter aulas de Português?..."
São as dúvidas dos meus alunos, que simultaneamente são as minhas, e ninguém se digna a responder. Sinto-me profundamente revoltada e injustiçada".
"Desabei, chorei"
Manuela Antunes, 47 anos, dá aulas em Espanha há cinco. Tem alunos em quatro escolas e as deslocações entre elas fazem com que percorra, semanalmente, 400 quilómetros:
"Apesar de não ser fácil era e continua a ser o trabalho mais gratificante que alguma vez tive. Nada me fez prever que uma desgraça destas me batesse à porta no final de um primeiro trimestre. Isto é desumano.
Esta situação foi-me comunicada no dia 29 de Novembro, quando me deslocava de uma escola para outra. Desabei. Chorei. Vi a minha vida virada do avesso. Tenho uma casa para pagar, um filho na universidade a quem sempre tentei que nada faltasse. Meu Deus, pensava eu, como vou conseguir fazer face a isto tudo e muito mais? Nessa noite não dormi. Penso em mim e em todos os que estão como eu a sofrer por algo que não cometeram.
Em Portugal pertenço ao quadro de agrupamento de Mangualde. Mas que tipo de trabalho me vão destinar em Janeiro? Sinceramente não sei o que vou fazer e o que é pior, não me apetece fazer nada. Tenho tanto para dizer".
Teresa de Sousa, 40 anos, dá aulas, de terça a sábado, em cinco escolas situadas em localidades diferentes da Suíça. A que está mais perto fica a cinco quilómetros, a mais longe a 78. Todos os seus alunos são filhos de emigrantes. É professora há quatro anos:


