Fernando Pessoa, escritor e boémio declarado, confessa-se em “flagrante delitro”, quando apanhado numa fotografia a beber um copo numa tasca em Lisboa. Agora imagine-se 33 tasquinhas, ou barraquinhas, patrocinadas pela Super Bock na zona ribeirinha do Parque da Nações com centenas e centenas de estudantes caloiros e universitários. Todos (ou a esmagadora maioria) claramente em “flagrante delitro”, na Mega Festa do Caloiro que decorreu na quarta e quinta-feira, no Parque das Nações. Alheios ou mais atentos à polémica das praxes que voltou à agenda, o discurso é quase sempre o mesmo: “Os caloiros estão aqui porque querem, nós não obrigamos ninguém a ser praxado”.
A festa dedicada aos caloiros no arranque do ano universitário não está directamente ligada às praxes. Não as promove, mas também não as proíbe. Por isso, é inevitável ver chegar grupos de caloiros acompanhados pelos novos colegas orgulhosamente trajados a rigor. Gritam, fazem-se ouvir e cantam músicas, de gosto mais ou menos duvidoso.
Esta semana, o tema das praxes voltou a ser falado depois da recomendação enviada às universidades pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e da proibição de fazer praxes decretada pelo presidente do Instituto Superior Técnico. No meio do turbilhão de capas pretas há uns mais atentos do que outros à polémica, mas, no final, o discurso é sempre o mesmo: “Os caloiros estão aqui porque querem, nós não obrigamos ninguém a ser praxado. Damos-lhes uma boa oportunidade para fazerem coisas que nunca pensaram, como gritar e fazer palhaçadas no meio da rua”, defende Sofia que frequenta o 2º ano de Medicina da Universidade de Lisboa. “Desenvolvem amizades e ligações fortes que duram durante o curso porque vivem momentos únicos e fortes de união”, justifica ainda a estudante.
O objectivo da iniciativa é acolher os que agora chegam à universidade para uma nova etapa do percurso académico que escolheram. “O caloiro vem para ser bem recebido”, garante Vivian Toller, organizadora da festa.
Para o vice-presidente da Associação de Estudantes da Universidade Atlântica, Francisco Trovão, os recentes comunicados do ministro e decisões sobre proibir as praxes fazem algum sentido até porque reconhece que existem alguns “exageros”. Mas lamenta que “só os casos negativos venham a público. “Os casos dos alunos que se divertem, gostam e anseiam ser praxados não aparecem”, diz o estudante do 3º ano de Fisioterapia. “Estamos aqui para nos divertirmos antes de as aulas começarem, só isso”.
Sobre o comunicado de Mariano Gago para controlo e responsabilização das praxes, Inês Ferreira, estudante do 5º ano de Farmácia acha bem que se controlem os praxadores. “Temos um código de praxe para isso mesmo. Só a partir do 3º ano é que podemos praxar até mesmo para evitar ‘vinganças’ de alguém que não gostou da sua praxe”. Faz questão de sublinhar que “há dois anos seguidos ninguém se declara anti-praxe na faculdade”.
João Baeta da Faculdade de Medicina Dentária diz que a praxe “é tradição”, por isso “acha mal que a proíbam”. Garante que “respeitam as pessoas, têm limites e não exageram”. “Não passa de um convívio divertido de estudantes, com limites, mas acima de tudo, promove a camaradagem”.
A Mega Festa realiza-se em dois dias. No ano passado, 70 mil estudantes passaram por lá, um número que se deve repetir este ano.
A cada Faculdade e Universidade são atribuídas as barraquinhas vermelhas. Distribuídas ao longo da beira do rio, perto da zona de restaurantes, a “especialidade da casa” é mesmo a cerveja.
Geridas pelos membros das Associações de Estudantes, há tasquinhas com decoração esmerada. Socorrem-se de toda a parafernália característica de cada curso: penduram luzes, cartazes, máscaras de futuros enfermeiros, dentistas, ou médicos, folhas de palmeira, ou um estilo mais havaiano, o limite é a imaginação.
“Queremos que venham cá muitos caloiros, veteranos, e que a nossa tasquinha faça tanto sucesso como no ano passado”, conta divertida Inês Ferreira, do curso de Farmácia. Outros avisam logo e fazem o convite com o cartaz: “Se achas que a nossa decoração é péssima, bebe mais um copo que isso passa!”.
Seguranças, polícia e bombeiros de bicicleta, elementos essenciais neste tipo de acontecimentos, asseguram que tudo corra bem. A organização admite que “há excessos”, mas “afinal, são estudantes e bebem”. “Nada de grave aconteceu nestas seis edições da Mega Festa do Caloiro”, congratula-se Vivian Toller.


