A situação financeira das universidades portuguesas é "insustentável" e está a colocar em risco projectos de desenvolvimento até no Instituto Superior Técnico (IST), considerada a instituição mais saudável financeiramente, disse hoje o novo presidente do IST.
Em entrevista à agência Lusa, António Cruz Serra, que hoje assume a liderança do Instituto Superior Técnico, afirmou que tem como metas melhorar os índices de empreendedorismo do IST e convencer a classe política de que a situação financeira das universidades portuguesas "é insustentável", principalmente devido às contribuições obrigatórias dos últimos anos para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), sem o correspondente reforço orçamental.
"Apesar de o IST ser das escolas mais saudáveis do ponto de vista financeiro, o próprio Técnico vai ter dificuldades", disse, salientando que "o orçamento disponível para as universidades desceu 18 por cento nos últimos anos".
O IST recebe 48 milhões de euros do Orçamento de Estado, mas a despesa anual com salários ronda os 56 milhões, pelo que "os salários estão a ser pagos com receitas próprias", disse, salientando que a capacidade que a instituição tinha de investir anualmente 3,5 milhões de euros na qualidade do ensino e instalações "deixou de ser possível devido ao aumento de custos fixos".
"Aquilo que aconteceu foi que o Ministério das Finanças impôs descontos obrigatórios para a CGA de 11 por cento e os aumentos da função pública foram de cerca de sete por cento acumulados e não houve o correspondente reforço orçamental, pelo que quando olhamos para a dotação do ensino superior vemos um valor muito semelhante ao de anos anteriores, mas o que acontece é que as nossas despesas obrigatórias foram aumentadas brutalmente", explicou.
"Se estivéssemos a falar de empresas privadas, as universidades já teriam feito despedimentos", sublinhou.
António Cruz Serra quer "convencer o governo e os políticos em geral de que esta situação não é suportável", porque as universidades não podem viver permanentemente de saldos transitados.
Mil engenheiros por ano no mercado
"No caso do Técnico, os saldos transitados estavam comprometidos com realização de projectos de investigação e desenvolvimento e o saldo que existia tem vindo a diminuir ao ritmo do pagamento da CGA, que todos os anos nos leva cinco milhões de euros. Estou certo de que a nossa tutela vai conseguir explicar ao ministro das Finanças que isto não pode continuar", considerou.
À frente de uma instituição que coloca no mercado de trabalho "mil engenheiros por ano com empregabilidade total e que tem as melhores taxas de produção científica e de captação de receitas próprias, António Cruz Serra quer apostar "na área do empreendedorismo e ligação ao tecido empresarial".
"Vamos apostar no apoio à criação de empresas pelos nossos alunos e participação nos nossos docentes e investigadores na criação de empresas, mas também na ligação ao tecido empresarial", disse, salientando que neste momento o técnico já consegue 15 milhões de euros anuais através da prestação de serviços a empresas.
O novo dirigente do IST pretende ainda aumentar a visibilidade internacional do Técnico e ter uma voz activa sobre políticas do ensino superior, mas também sobre as políticas públicas.
"Acho que o Técnico tem de se pronunciar sobre as grandes questões políticas públicas, nomeadamente sobre as decisões de suspensão dos investimentos nas grandes obras publicas nacionais e as necessidades de investimento noutros casos", considerou.


