Escolas podem fechar com nova política de ensino do Português no estrangeiro

30.07.2008 - 17:24 Por Lusa
A nova política do governo de Portugal para o ensino do Português no estrangeiro pode ditar o fim das escolas comunitárias nos Estados Unidos e Canadá, garantiu fonte da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá (APPEUC).
O receio surgiu depois de o secretário de Estado Adjunto e da Educação português, Jorge Pedreira, ter anunciado, numa reunião com a APPEUC, durante o XVI Encontro de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá, que os professores que neste momento se encontram nestes dois países em situação de licença sem vencimento (17 nos EUA) serão obrigado a "optar" no final dessa licença. "Estes professores, com vínculo ao Ministério da Educação, são agora obrigados a optar entre continuarem nos Estados Unidos, e perderem assim o vínculo, ou regressarem às suas escolas em Portugal", disse Diniz Borges, o presidente da APPEUC.
Estes professores eram, até aqui, o garante da qualidade do ensino em muitas escolas comunitárias, numa altura em que todas elas se debatem com falta de docentes com habilitação própria para leccionarem o Português aos filhos dos emigrantes.
Com o seu previsível regresso a Portugal, uma vez que poucos quererão perder o vínculo ao Ministério da Educação, a curto prazo, o encerramento destas escolas é quase certo, pois nos Estados Unidos é "muito difícil encontrar um professor de Português para leccionar em horário pós escolar nestes estabelecimentos de ensino”. "A realidade é que não há professores de Português formados nos Estados Unidos. Nem para leccionar nas escolas do ensino oficial norte-americano que oferecem português como segunda língua, quanto mais nas comunitárias", frisou Diniz Borges.
Por outro lado, alguns dos docentes que participaram na reunião queixaram-se que Portugal "parece cada vez mais afastado da responsabilidade constitucional" de garantir o ensino do Português aos filhos dos seus emigrantes, apostando em passar essa tarefa aos países de acolhimento. "Da reunião ficou a ideia de que o governo não parece muito interessado em apoiar a promoção do ensino da língua junto das nossas comunidades, mas sim deixar que sejam as escolas norte-americanas a incluir o Português como língua de opção nos seus currículos", disse um dos professores, que solicitou anonimato.
Continuidade ameaçada
"Em Portugal, há a ideia, errada, de que as escolas norte-americanas são obrigadas a incluir o Português nos seus currículos, a pedido das comunidades", diz um dos docentes que lecciona num estabelecimento de ensino dos Estados Unidos. "Mas isso não é bem assim, e mesmo que algumas escolas secundárias venham a oferecer a Língua Portuguesa, por pressão das comunidades, isso não é garantia de que ela continue para além do primeiro ano, pois é necessário garantir um número mínimo de alunos e outras requisitos, como o apoio financeiro, que Portugal, obviamente, não quer dar", acrescentou a mesma fonte.
Nos Estados Unidos, os distritos escolares são autónomos, eleitos por sufrágio directo, com orçamentos próprios pagos pelos contribuintes locais, que estão pouco interessados em ter nas suas escolas uma língua que nada lhes diz. "Mais depressa optarão pelo chinês ou árabe, como está a acontecer", acrescenta a mesma fonte. E dá o exemplo dos professores que há alguns anos vieram para o Estado de Massachusetts, ao abrigo do protocolo entre o Portugal e este Estado da Nova Inglaterra. "A maioria deles foi leccionar matemática e outras disciplinas, pois as escolas onde foram colocados não ofereciam o Português como língua de opção", sublinhou.
Por outro lado, o sentimento unânime de quem está no terreno e conhece a realidade há muitos anos é que o ensino integrado "não serve" as comunidades lusas, nem aprender português pode ser feito fora do contexto cultural das nossas associações e instituições. "Para que o ensino integrado vingue neste pais é necessário lançar campanhas de promoção, como fazem a Espanha e a Coreia do Sul e outros países", disse o presidente da APPEUC. "Ora, Portugal, como se sabe, não tem dinheiro nem vocação para isso", acrescentou.

