Distribuição das notas dos exames põe em evidência desigualdades regionais

21.10.2006 - 00:10 Por Isabel Leiria
Em mais de metade dos concelhos (142 em 265) onde se realizaram os exames nacionais do 12.º seleccionados pelo PÚBLICO a média é inferior a 10 valores (numa escala de 0 a 20). E no melhor dos casos nem sequer chega aos 12. Curiosamente, este valor (11,75) é obtido em Porto Moniz, no arquipélago da Madeira, onde todas as restantes 15 escolas secundárias se posicionam abaixo do 400.º lugar no ranking.
Olhando para o mapa de Portugal continental, constata-se que os nove concelhos com as classificações mais negativas (médias entre os 6 e os 7,99) situam-se exclusivamente no interior: entre Murça, Alfândega da Fé e Mesão Frio, passando pela Pampilhosa da Serra e Idanha-a-Nova e acabando a sul em Campo Maior. Daí para baixo, os resultados abaixo dos 10 valores continuam a constituir a cor dominante, mas regularmente interrompida por concelhos onde os alunos obtiveram médias dentro da positiva.
Já na faixa litoral, de Almada até Caminha e quase sem excepções, o número de concelhos com média acima dos 10 valores é absolutamente dominante. Aliás, tanto no mapa relativo às oito disciplinas do 12.º como no da Matemática, embora aqui a fasquia caia radicalmente, parece que se traçou uma diagonal em cima do país, que separa os melhores resultados nos exames dos piores, esmagadoramente concentrados no interior e a norte.
Esta é uma tendência que naturalmente se confirma de ano para ano. Depois há subidas e descidas para as quais é necessário encontrar outras explicações. Por exemplo, se o concelho de Belmonte se distinguiu em 2005 por (a sua única escola secundária) apresentar a média global mais elevada, este ano cai para um modesto 97.º lugar, com 10,2 valores.
Já os alunos de Porto Moniz passam de uma média negativa para a positiva mais alta, saltando da 164.ª posição para a primeira.
Só 12 concelhos com positiva a Matemática
Sem surpresas, é no caso da Matemática que a situação se agrava consideravelmente. Apenas 12 num conjunto de 265 concelhos listados apresentam uma média igual ou superior a 10 valores em Matemática, ou seja, 4,5 por cento do total.
Embora as diferenças Norte/Sul, litoral/interior sejam particularmente visíveis neste mapa, os concelhos que conseguem a façanha de ter classificações positivas espalham-se pelo território. De Miranda do Douro (distrito de Bragança) a Melgaço (Viana do Castelo), passando por Oliveira de Frades (Viseu) ou Beja.
A classificação mais elevada foi registada em Sobral de Monte Agraço (distrito de Lisboa), mas apenas oito alunos contribuíram para os 12,4 de média.
Do lado dos piores resultados, há 25 concelhos com médias máximas de 4,9 valores. Cinco pertencem ao distrito de Vila Real.
A Região Autónoma da Madeira, com três concelhos nesta situação, também revela graves dificuldades a Matemática.
Murça (distrito de Vila Real) apresenta a pior classificação, com os 25 alunos que prestaram provas nesse concelho a ficarem pelos 3,3 de média.
A Português B, a situação inverte-se completamente, com apenas 18 concelhos a apresentar uma média abaixo dos 10 valores. Cinco escolas da Madeira e quatro do distrito de Viseu estão nesta situação, com a localidade açoriana de Povoação a obter os resultados mais fracos (média de 6,9).
No extremo oposto, o destaque vai para os dez alunos de Mora (Évora), que tiveram 15,3 valores. De resto, a Português B, as boas e más classificações distribuem-se pelo território de forma mais homogénea.
Como foi feito o ranking?
- Que base serviu para a seriação das escolas?
O Ministério da Educação (ME) divulga as médias dos exames nacionais do 12.º ano, por escola e por disciplina. É a partir desta base que é feita a listagem dos 587 estabelecimentos com ensino secundário, públicos e privados. As escolas estão ordenadas da que teve maior média global nos exames referentes às disciplinas previamente seleccionadas pelo PÚBLICO para a que teve pior. E são apenas considerados os resultados da 1.ª fase (provas realizadas entre 19 de Junho e 3 de Julho).
- Que disciplinas foram seleccionadas para a elaboração do ranking e porquê?
Foram oito as disciplinas escolhidas: Matemática, Português B, Português A, Psicologia, Biologia, Química, História e Física. Isto porque se trata de cadeiras cujos exames nacionais têm o maior número de alunos inscritos. A excepção é o Português A, que, apesar de apresentar menos estudantes matriculados (12.323), é obrigatório para quem frequenta o agrupamento de Humanidades. Além disso, este é o critério que tem sido seguido pelo PÚBLICO desde o primeiro ano de publicação dos rankings, em 2001.
- E que exames foram tidos em conta?
Apenas os exames realizados na 1.ª fase e apenas as provas necessárias à conclusão das disciplinas anteriormente referidas. Este ano, o 12.º ano foi frequentado simultaneamente por alunos que estudaram por programas antigos e outros que aprenderam pelos novos programas do secundário. A coexistência no sistema destes dois grupos de alunos obrigou o ME a organizar, no caso das disciplinas reformuladas, dois exames diferentes. Por exemplo, houve a prova de Química 642 (relativa ao programa novo) e a de Química 142 (currículo antigo). E ambas serviam o mesmo propósito: concluir a disciplina e ingressar no ensino superior. O PÚBLICO optou por ter em conta as notas de todos os alunos que tivessem feito quer os exames relativos aos programas antigos quer os novos de uma mesma disciplina. Ou seja, foram consideradas as classificações de 14 exames realizados em oito disciplinas: Matemática (435 e 635); Português A (138); Português B (139 e 639); Biologia (102 e 602); Física (115 e 615); Química (142 e 642); História (123 e 623); Psicologia (140).
- Todos os alunos que realizaram esses exames entram nestes cálculos?
Não. Apenas foram considerados os alunos internos. Ou seja, aqueles que fizeram todo o ano lectivo na escola e estudaram com os professores desse estabelecimento de ensino. Excluíram-se os externos e que se autopropuseram a exame.
- Houve pela primeira vez exames nacionais no 11.º ano. Os rankings também reflectem os resultados dessas provas?
As listagens foram elaboradas apenas com base nos resultados do 12.º. Esta foi a opção do PÚBLICO, tendo em conta que este foi um ano de transição. Por exemplo, 2006 foi a última vez que os alunos prestaram provas a Biologia, Química e Física no 12.º (à excepção dos que chumbarem e se mantiverem por isso na antiga reforma curricular). E foi também o ano de estreia das provas no final do 11.º nestas mesmas áreas científicas. A manutenção dos critérios dos anos anteriores tem ainda a vantagem de permitir comparações no tempo.
- Foi calculada uma média para todas as escolas com ensino secundário?
Sim. O ranking das 587 escolas é feito com base na média que cada uma obteve no conjunto dos exames seleccionados. Todas foram listadas por ordem decrescente, independentemente de nessa escola se terem realizado provas a uma ou várias disciplinas, entre as oito consideradas. Para esta seriação também não se teve em conta o número de alunos que cada uma levou a exame. No entanto, o tipo de disciplinas e o número de provas prestadas são factores fundamentais a ter em conta na leitura das tabelas. Há escolas que aparecem em lugares cimeiros, mas onde apenas se realizaram uma ou duas dezenas de provas e que, por isso, estão numa situação diferente daquelas que respondem por um desempenho médio muito bom de centenas de alunos.
- Como foi feita a lista de escolas por concelhos?
A organização por concelhos – as últimas listas que podem ser encontradas neste suplemento – ajuda a perceber como se posiciona cada escola em relação a outras que estão geograficamente mais próximas. Tanto globalmente como em cada uma das oito disciplinas. Há situações em que o leitor não encontrará a posição em que a escola se encontra numa determinada disciplina. Isto porque se optou por não atribuir número de ordem sempre que a quantidade de alunos levada a exame fosse reduzida e susceptível de causar distorções significativas na média. Assim, consideradas isoladamente as provas relativas a Matemática, Português B, Química, Biologia e Psicologia, e para efeitos de ordenação da disciplina, não foram tidas em conta as escolas com menos de 15 inscritos. Nas de Física, História e Português A, a fasquia baixa até aos dez alunos, porque são provas que, a nível nacional, também apresentam menos inscrições.
- Como foi calculada a média de escola?
Foram somadas todas as classificações em cada prova das oito disciplinas seleccionadas pelo PÚBLICO. O total foi depois dividido pelo número de alunos que fizeram estes exames.
- Quem tratou os dados?
O PÚBLICO contou com a colaboração de Jorge Cerol, director executivo do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa para proceder à elaboração das várias ordenações.

