O ex-presidente da República Mário Soares classificou hoje como “crucial” esta semana para saber se a Europa cai no “abismo”, considerando “impossível” ficar ao lado da chanceler alemã, Angela Merkel, “quando ela só faz asneiras”.
No Porto, durante a apresentação do seu livro “Um político Assume-se - Ensaio Autobiográfico, Político e Ideológico”, Mário Soares disse ser necessário voltar aos “valores da política” e mudar de modelo social, económico e político.
“Todos dizem que estamos à beira do abismo, e é verdade. Mas caímos ou não caímos?”, questionou.
Para o histórico socialista “vai haver uma grande ruptura e uma grande mudança”, estando “convencido” de que “os políticos actuais, que não são capazes de ver a realidade e só que só vêem a ideologia e o interesse, não vão longe”.
A justificar, argumentou: “Nem podem ir, porque não têm o apoio do povo. Estão a perder dia a dia o apoio do povo. Quem é que pode dizer à senhora Merkel que está ao lado dela quando ela só faz asneiras? Ou ao presidente Sarkozy? É qualquer coisa de impossível”.
Mário Soares recordou uma conferência em Paris na qual defendeu esta ideia, relatando o que aconteceu: “Na primeira vez que lá fui disse isso e eles não gostaram; da segunda vez já discutiram muito comigo; da terceira vez estavam de acordo a 100 por cento, porque foi a realidade que os obrigou. Para o caso até esteve presente o [ex-primeiro-ministro José] Sócrates”.
O antigo Presidente da República explicou que escreveu o livro “porque toda a gente diz mal dos políticos” e “porque toda a gente acha que a política é uma vergonha, porque o que é preciso são os mercados para destruírem os Estados”.
“Já não é por acaso que neste mundo europeu tão confuso” se assiste à “nomeação de dois primeiros-ministros sem que fossem eleitos, sem que se consultasse o povo e só porque os mercados entenderam que deviam ser eles”, disse Soares, referindo-se aos casos grego e italiano.
Dois casos, disse, que provam a existência de aflição com a democracia “na Europa e em todos os países da Europa”.
O ex-Presidente afirmou ainda que “os políticos fraquejam e os partidos também estão a fraquejar”.
Soares recordou que “quem construiu a União Europeia foram dois tipos de famílias políticas”, a “dos socialistas ou dos sociais-democratas, por um lado, e a família da democracia cristã”, por outro.
“Neste momento não há partidos nem democratas-cristãos e os partidos socialistas estão todos expulsos do poder”, alertou.
O histórico socialista deu ainda o exemplo do CDS-PP e de Paulo Portas.
“Ele transformou o partido dele, que era CDS, em PP mas, agora tem algum faro para perceber o que se passa à volta dele, já resolveu acrescentar PP ao CDS outra vez”, afirmou.


