A divisão ficou à vista no Congresso de Mafra, alastrou à comissão política nacional e ontem, a dois dias das eleições directas no PSD, aprofundou-se a fractura. O projecto de resolução PS sobre o PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento), que hoje será votado no Parlamento, contaminou a campanha, pondo os candidatos a falarem a várias vozes.
Na Mealhada, Passos Coelho voltou a apelar ao voto contra. Ele que em Mafra desafiara o PS a adiar a votação para depois da eleição do novo líder do PSD se queria ser "consequente" com a vontade de um largo consenso político, voltou a defender o voto contra. "A menos que o Governo tivesse querido negociar e incluir medidas estruturais no PEC, o PSD não deveria dar o seu acordo a este programa", insistiu. O candidato não pôs em causa a "legitimidade" da actual direcção de Manuela Ferreira Leite de tomar decisões, mesmo estando de saída. Mas foi avisando que, caso seja eleito, não se sentirá "responsabilizado pelo resultado de hoje no Parlamento". Esta posição converge com aquela que assumiu também em relação ao Orçamento de Estado, que mereceu a abstenção dos sociais-democratas, quando anunciou que "não ficará refém" desse compromisso político.
Em Lisboa, Paulo Rangel reiterava também que votaria contra, chegando mesmo a comparar uma eventual abstenção a "um cheque em branco" a Sócrates. "Ainda hoje [ontem] ficou comprovado que o Governo está a ser incompetente, porque não consegue controlar a despesa e não merece a confiança dos mercados", alegou Rangel, aludindo à descida do ratinganunciada pela agência Fitch.
Ao contrário, Aguiar-Branco utilizou esse sinal dos mercados para defender que esse factor deve ser tido em conta na decisão que o PSD vai tomar. "O estado em que estamos é uma consequência das políticas erradas que foram seguidas pelo PS", acusou, mas evidenciou a necessidade de haver "sentido de Estado e de responsabilidade, porque há várias componentes que estão em jogo". O que não quis mesmo foi revelar qual será hoje o sentido de voto da bancada.
Manuela Ferreira Leite, que no congresso de Mafra admitiu "não haver outra solução" a não ser a abstenção, apesar de o PEC ser "um programa de estabilidade e estagnação", optou por adiar para hoje uma decisão.


