Texto publicado a 22 de Janeiro de 2012

O "até amanhã" de um homem que mudou o sindicalismo

27.01.2012 - 11:34 Por Nuno Ribeiro

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Saída do sindicalismo não é uma despedida da participação social. Advinha-se um “até amanhã” Saída do sindicalismo não é uma despedida da participação social. Advinha-se um “até amanhã” (Foto: Miguel Manso)
O abandono da liderança da CGTP, neste fim-de-semana, não é a saída de cena de um homem preocupado, com grande agenda de contactos e uma influência abrangente. Deixa a central, por limite de idade, quase ao mesmo tempo que é assinado um acordo de concertação onde é posto em causa muito daquilo por que lutou. Garantem os amigos que está interessado num pensamento alternativo. Para agir.

Manhã de quinta-feira, 19 de Janeiro: Manuel Carvalho da Silva chega à sede da CGTP, na Rua Victor Cordón. Pede desculpa pelo atraso. Tem um ar cansado: "Acordei afónico." Combate a rouquidão mascando pastilhas. A uma semana do congresso da central sindical que será o cenário da sua saída como secretário-geral, tem uma agenda sobrecarregada. "Sinto-me óptimo, mesmo muito bem", garante quando entramos na sua sala de trabalho. Um espaço de paredes brancas, que fica ofuscado com a intensidade da luz do sol de Inverno.

Aos seus pés, Carvalho da Silva tem o azul do Tejo. Ao fundo, na outra margem do rio, entre a bruma sobressai a imagem escura de um guindaste da Lisnave. Sai da sala em busca de fotocópias. Empilhados estão vários livros. Uma olhadela rápida evidencia um interesse caleidoscópico. Representação Política, o Caso Português em Perspectiva Comparada , de André Freire e José Manuel Leite Viegas, está ao lado de Arquivo do Meu Pensamento , recordações de um mineiro, de Manuel Patrício; a denúncia de Os Atrasos da Justiça , de Conceição Gomes, convive com a esperança de 25 Perspectivas para o Futuro , da Quercus. A sua saída do sindicalismo não é uma despedida da participação social. Advinha-se um "até amanhã".

Um desejo "longo"

"O meu desejo de sair da central já é longo, em 2004 já podia ter saído", revela. "Estamos em queda violenta, preocupa-me a situação geral, mas não a situação da CGTP", admite. Aos 64 anos, na direcção da Intersindical desde 1986, então como coordenador e a partir de 1999 no cargo de secretário-geral, já viveu e viu muito. "Está lá há tempo de mais, tirando o Alberto João Jardim, é uma das personalidades que há mais tempo permanece à frente de uma organização", observa um amigo que solicita o anonimato. "O seu ciclo está esgotado." Mas o seu ciclo foi perene em consequências. "Em 1988 [na greve geral conjunta, com a UGT, contra o Governo de Cavaco Silva], ele compreendeu que o êxito de uma greve geral era superior ao somatório das duas centrais", continua a mesma fonte. Daí a aproximação à UGT, recordação que, na quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012, não deixa de ser irónica, quando as duas centrais marcaram um inesperado rendez-vous na barra de um tribunal, por causa das declarações de João Proença após a assinatura do acordo de concertação social pela UGT.

"Na comissão executiva da CGTP muitos não estávamos à altura do seu pensamento estratégico, tem uma racionalidade política muito intuitiva, equilibra tendências diferentes", recorda Ulisses Garrido, antigo responsável de Informação e Propaganda da CGTP. "Carvalho da Silva também percebeu que uma organização sindical tem de se aprofundar, ligar às universidades, estar em formação permanente", observa.

Criar um espaço próprio

Como ele. De operário, montador electricista, a doutorado em Sociologia, estudando nas horas livres. Um caminho entretanto seguido por outros quadros da Intersindical. "Ele foi evoluindo, até criar um espaço próprio, o que não é fácil em política e muito menos no PCP. Em termos sindicais criou o seu próprio espaço e a sua margem de manobra", comenta um ex-camarada de partido. "O ter estudado, evoluído, garantiu-lhe a independência presente e futura, e por ter vindo da fábrica não têm por onde pegar." Carvalho da Silva está imune à "sedução" dos aparelhos. Tem vida para além do sindicalismo.

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Bye bye

E com ele foi embora toda uma politica da estabilidade no emprego sem nada se fazer por isso, a ...

Francisco Coelho

27.01.2012 23:13