Governo pode garantir mais 3000 milhões com IVA e subsídio de Natal

11.05.2010 - 07:19 Por João Ramos de Almeida, Sérgio Aníbal, Nuno Simas
Nova subida de IVA e tributação extraordinária do subsídio de Natal de toda a população, duas medidas ponderadas pelo Governo para garantir o novo objectivo do défice, têm o potencial para, este ano, gerar uma receita adicional para o Estado de mais de 3000 milhões de euros.
Para cumprir a promessa feita aos parceiros europeus no fim-de-semana de colocar o défice em 7,3 por cento já este ano (o valor que estava previsto era de 8,3 por cento), o Governo precisa de encontrar, até Dezembro, poupanças ou receitas adicionais de cerca de 1700 milhões de euros. Para garantir uma verba desta magnitude em tão curto espaço de tempo - e sabendo que o adiamento das grandes obras públicas gera uma poupança irrisória no curto prazo - o executivo está a virar-se para medidas de efeito mais imediato e garantido.
A subida dos impostos indirectos, como o IVA, é a hipótese mais óbvia, mas em cima da mesa está também um cenário de tributação extraordinária do subsídio de Natal, tanto no sector privado como público. Ontem, o Diário Económico escrevia que eram estas duas medidas que estavam a ser pensadas pelo Governo e discutidas com o PSD. O potencial de receita deste tipo de medidas é bastante elevado, superando claramente o ponto percentual do PIB que é necessário para corrigir o défice este ano. Com a subida do IVA, os responsáveis do Ministério das Finanças têm, no passado recente, esperado uma receita média anual de 500 milhões de euros por cada ponto percentual de subida da taxa. Caso fosse aplicada a partir de Julho próximo, o Estado poderia arrecadar entre 225 e 250 milhões de euros por cada ponto de subida. Sabendo que uma alteração não deverá ir nunca além dos dois pontos percentuais - para 22 por cento -, o ganho potencial com esta medida este ano é de cerca de 500 milhões de euros.
Já um imposto extraordinário sobre o 13.º mês tem uma receita potencial bem superior, embora dependente da taxa a aplicar. A estimativa do PÚBLICO é a de que, caso esse imposto correspondesse à totalidade do ordenado, o Estado arrecadaria entre 2300 e 2400 milhões de euros. O valor pode ser calculado com base nas estatísticas da Segurança Social. O 13.º mês antes de impostos corresponderá a 2690 milhões de euros. O Estado já retira a sua parte com o IRS (a taxa média de IRS foi de 16,5 por cento - 440 milhões de euros), ou seja, a receita adicional efectiva seria de cerca de 2250 milhões de euros. Claro que o Governo pode optar por taxar apenas uma parte do valor do subsído de Natal - em 1983, foi cerca de um quarto.
Pressão do banco central
Para além das exigências dos seus parceiros europeus, o Governo está a ser pressionado para reduzir fortemente o défice também pelo Banco de Portugal, que actua em nome do BCE, que passou desde ontem a emprestar dinheiro aos Estados da zona euro, através da compra de obrigações. Vítor Constâncio tem insistido com o executivo para a apresentação de medidas de contenção adicionais e ontem emitiu mesmo um comunicado em que pede "a adopção de novas medidas que, de forma convincente, reduzam o défice orçamental deste ano e do próximo, visivelmente mais do que se encontrava previsto no nosso PEC". Constâncio lembra que, se Portugal tiver de recorrer ao programa lançado pela UE, isso equivale a ter negociar a aplicação de um programa de austeridade com o FMI.
As medidas têm de ser apresentadas em Bruxelas até à próxima terça-feira e passam por uma negociação entre Governo e PSD. Apesar de prevista para "segunda ou terça-feira", a agenda do primeiro-ministro poderá atrasar o encontro com Pedro Passos Coelho. Ontem o chamado "núcleo duro" do Governo esteve reunido, de manhã e à tarde para preparar as medidas. À hora de almoço e primeiras horas da tarde presidiu à reunião do secretariado nacional do PS.

