Procura interna e exportações. Foram estes dois ingredientes que, no primeiro trimestre, deram a Portugal a receita mágica do crescimento e eliminaram o perigo de voltar a cair numa recessão técnica.
Segundo a estimativa rápida ontem avançada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o Produto Interno Bruto (PIB) nacional aumentou um por cento face ao trimestre anterior e 1,7 por cento face a igual período de 2009.
Este desempenho, que surge como inesperado e até inexplicável para os analistas, coloca Portugal como o país que apresentou um crescimento mais forte em cadeia em todas as frentes: quer na zona euro, na União Europeia ou mesmo face aos EUA.
Porém, apesar de o ministro das Finanças ter já proclamado que estes dados mostram a "boa capacidade de recuperação da economia", o crescimento parece estar longe de ser um dado adquirido e, segundo alguns analistas contactados pelo PÚBLICO, pode mesmo ser ameaçado pelas medidas austeras que o Governo está a preparar, nomeadamente o aumento do IVA e criação de uma taxa adicional de 1 a 1,5 por cento sobre os salários.
Segundo o INE, que irá confirmar a sua estimativa no dia 9 de Junho, com a apresentação das contas nacionais trimestrais, o aumento do PIB ficou a dever-se a "um efeito de base", já que entra em comparação com os dois piores trimestres de 2009 - o primeiro, em termos homólogos, e o último, numa análise em cadeia. Além disso, o INE realça que o crescimento económico se alicerçou numa "melhoria dos contributos da procura interna e da procura externa líquida [o saldo entre exportações e importações], mais intensa no primeiro caso".
Quanto às exportações, os dados são já conhecidos. Nos três primeiros meses do ano, Portugal exportou mais 14,6 por cento e importou 7,6, o que permitiu diminuir o défice da balança comercial em 168,3 milhões de euros. Contudo, do lado do consumo, não se sabe ainda quais terão sido os motores do crescimento.
Os indicadores do INE já disponíveis mostram uma "recuperação do consumo privado, quer em termos de despesa corrente, quer da melhoria do volume de negócios do comércio a retalho", refere Rui Constantino, economista do Santander Totta. Este analista, tal como Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI, destaca sobretudo a boa performance das vendas de automóveis ligeiros de passageiros, que dispararam 69,5 por cento entre Janeiro e Março.
Já o analista Filipe Garcia, do IMF (Informação de Mercados Financeiros), diz não encontrar explicação para o crescimento de um por cento e a recuperação da procura interna num cenário de crescente desemprego.
Um por cento não se repete
Quanto às perspectivas de evolução, os analistas são unânimes. "Se se confirmar que a subida do PIB teve como motor o consumo privado e, nomeadamente, a venda de automóveis, o efeito não se vai repetir", adianta Filipe Garcia. Rui Constantino acrescenta: "O primeiro trimestre não tem uma aceleração tão forte do consumo como parece, porque há um efeito de compensação entre a grande subida nas importações de carros, no quarto trimestre de 2009, e as vendas deste ano".
Por outro lado, segundo o analista do IMF, a crise da dívida, que explodiu no final de Março, adiou decisões de compra e investimentos. Quanto às exportações, também podem vir a sofrer uma quebra devido à retracção de consumo nos países europeus nossos clientes, a braços com planos de austeridade nas finanças públicas, uma realidade que, segundo os analistas, também pode perturbar o crescimento português, se o Governo optar por medidas mais restritivas. Até porque o indicador da confiança dos consumidores tem mantido uma trajectória descendente.
O próprio governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, não se mostrou ontem convencido com o crescimento de um por cento, dizendo que serão necessárias medidas adicionais. Já para Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro, os números do INE afastam o cenário de Portugal ter de recorrer ao fundo de 750 mil milhões de euros criado pela UE e pelo FMI para socorrer os países do euro em dificuldades.


