Eric Cantona, ex-futebolista francês que ficou conhecido tanto pelas suas qualidades como jogador como pela indisciplina e agressividade, lançou uma ideia que, a ser concretizada por um grande número de cidadãos europeus, poderia paralisar o sistema financeiro. Cantona, actualmente com 44 anos, defendeu numa entrevista a um jornal regional francês que são precisas formas de contestação alternativas às greves e às manifestações e que é necessário que se faça "uma verdadeira revolução".
"Não peguemos em armas para matar pessoas e começar uma revolução. Nos dias de hoje, é muito fácil fazer uma revolução. O sistema assenta no poder dos bancos, por isso tem de ser destruído através dos bancos", defendeu o ex-jogador, que, nos últimos anos, tem dividido o seu tempo entre o cinema e as acções de beneficência, através da Fundação Abbé Pierre, que presta apoio a pobres e sem-abrigo.
Na entrevista, dada depois da forte contestação dos franceses ao plano de austeridade, com implicações nos impostos, redução da despesa pública e aumento da idade da reforma, o antigo jogador que, ao longo da carreira, ganhou fama de "enfant terrible" - é famoso, por exemplo, o golpe de kung fu que em 1995 deu a um adepto do Crystal Palace e que lhe valeu 120 horas de serviço comunitário - sustentou que o seu conceito de revolução é simples: "Em vez de irmos para as ruas, conduzir durante quilómetros, basta ir ao banco e levantar o dinheiro. Se houver muita gente a fazer levantamentos, o sistema colapsa. Sem armas, sem sangue."
Por que é que estamos a dar destaque à entrevista de Eric Cantona, que chegou a ser apelidado de "rei" nos tempos áureos da sua carreira futebolística, no Manchester United, na década de 90? Porque a entrevista ao jornal Press Océan, de Nantes (Zona Centro), foi gravada em vídeo. E esse vídeo foi colocado no YouTube, e já registou dezenas de milhar de visitas. Bastante menos, contudo, do que os mais de quatro milhões de visionamentos que, poucos dias depois do jogo amigável entre Portugal e Espanha, já tinha o vídeo do momento em que Cristiano Ronaldo viu um golo anulado.
Mas a proposta de Cantona teve uma consequência imediata que não pode ser desprezada, já que serviu de mote a um movimento na Internet, o StopBanque, que apela aos cidadãos europeus, e não apenas aos franceses, para que façam levantamento de dinheiro, aos balcões dos bancos, num dia em concreto: 7 de Dezembro.
Já terão sido manifestadas mais de 14 mil intenções de adesão a esta iniciativa, e a mensagem do StopBanque começa a ser replicada noutros países, com destaque para a Inglaterra, e também noutras redes sociais, designadamente no Facebook.
Pode um movimento maciço de levantamentos colapsar o sistema financeiro? Em teoria, pode. É expectável que isso venha a acontecer? Não.
Guardar no colchão?
Vamos aos factos. Há largas centenas de milhar de consumidores, para não falar em milhões, furiosos com o sistema bancário. A crise foi gerada no seio dos bancos - começou pelos exageros na concessão de crédito imobiliário nos Estados Unidos, o chamado "subprime" -, arrastou a economia mundial para uma recessão como não há memória, obrigando os Estados a resgatar bancos e a gastar muito dinheiro para dinamizar a economia e evitar consequências maiores.
Na sequência deste esforço, feito com recurso à emissão de dívida, os défices públicos dispararam e rebentou a crise da dívida pública, que, agora, está a obrigar os governos de vários países a lançar ambiciosos planos de austeridade que incidem fundamentalmente sobre o aumento de impostos, redução de salários, cortes na idade da reforma.
Apesar de serem centenas de milhar os consumidores descontentes, ou com vontade de fazer uma birra, seriam precisos apenas algumas dezenas de clientes para criar perturbação. Bastava dirigirem-se aos balcões, no mesmo dia, à mesma hora, para esgotar o pouco dinheiro que as agências têm em caixa ou nos cofres-fortes e criar uma situação de total paralisia do sistema. Os bancos apenas guardam uma pequena parte dos depósitos que recebem, canalizando o restante para empréstimos e para outros investimentos.
Mas, apesar da profunda revolta dos cidadãos - chamados a pagar uma factura elevada quando acham que pouco ou nada contribuíram para esta crise -, é pouco provável que o cartão vermelho pedido por Cantona ganhe muitos adeptos.


