O buraco patrimonial da empresa filatélica Afinsa eleva-se a 1823 milhões de euros, concluiu um relatório da actual administração judicial espanhola da sociedade, que se encontra envolvida num caso de burla que afectou centenas de milhares de clientes em Portugal e em Espanha.
O relatório sobre a situação económica da empresa — encerrada por ordem judicial há quase um ano e cujos dirigentes são acusados de vários crimes financeiros — refere que a Afinsa tem activos de 613 milhões de euros e um passivo de 2436 milhões de euros.
A maioria desse passivo refere-se a contratos avaliados em 2403 milhões de euros, correspondentes a mais de 190 mil clientes da entidade, outrora uma das mais conceituadas a nível mundial na compra e venda de filatelia.
O relatório refere que os 150 milhões de selos da Afinsa apenas valem 248 milhões de euros, ou seja, 10,32 por cento das obrigações contraídas através dos contratos com os clientes.
Os administradores aplicaram um modelo contabilístico diferente do dos antigos administradores da empresa, cifrando o valor de activos em 613 milhões, aquém dos 2588,5 milhões de euros divulgados pelos antigos dirigentes da Afinsa.
Os administradores qualificam a situação patrimonial da Afinsa como "estática" e "insuficiente para responder até a 50 por cento do passivo".
"Não é possível, mesmo hipoteticamente, que a empresa tenha viabilidade", explicam, notando que a actividade mercantil filatélica "hoje não poderia ser retomada, nem sequer reorientando-a".
Como principais activos da empresa, os administradores judiciais listam apenas as participações na empresa Oika Real Estate e no grupo norte-americano Escala. Além disso, listam ainda os selos, obras de arte e outros investimentos financeiros.
No relatório, os administradores criticam "a falta de precisão técnica" dos contratos filatélicos que a Afinsa fez com os seus clientes.
Segundo referem, a Afinsa mantinha "um negócio diferente daquele que publicitava", usando termos como "investimento, poupança e rendimentos financeiros" e garantindo "uma devolução com rentabilidade certa" quando se tratava de compra e venda de selos.
Responsáveis da Afinsa têm rejeitado sucessivamente a análise da administração da empresa, referindo que as contas ignoram ou subvalorizam o valor real do principal património — os selos.
A Afinsa, fundada em 1980 pelo português Albertino Figueiredo, e a empresa Fórum Filatélico foram alvo de rusgas policiais em Março de 2006, conduzidas por ordem judicial e depois de investigações da Fazenda Pública de Espanha.
As empresas Afinsa e Fórum Filatélico estão actualmente sob administração judicial, depois de os seus responsáveis terem sido acusados de burla, delitos contra a Fazenda Pública de Espanha, branqueamento de capitais, insolvência punível, administração desleal e falsificação de documentos.
Em finais de Março deste ano, os ex-presidentes da Afinsa e do Fórum Filatélico ameaçaram interpor uma acção contra o Estado espanhol pelo que consideram ter sido uma intervenção judicial "premeditada" e "danosa".


