Se há coisas que nunca mudam, Jay Reatard é uma delas. Continua, por exemplo, a fazer capas tenebrosas e neste "Watch me fall" escolheu retratar-se como zombie nada convincente nos longos cabelos, na floresta e nevoeiro que o rodeiam. E continua a ser um tipo, doentiamente auto-depreciativo, que o mundo e a humanidade tortura e continuará a torturar enquanto o pobre tipo respirar.
Pois bem, que respire por muitos anos - eis a conclusão a retirar deste "Watch me fall" que encontra salvação para a misantropia em rock'n'roll glorioso. O homem das sabemos lá quantas bandas - começou em 1998 com 18 anos e não mais parou de tocar, compor, gravar - é agora, definitivamente concentrado nas edições em nome próprio, uma verdadeira linha de montagem, qual versão punk do Brill Building ou da Motown. As suas canções vivem num frenesim rítmico de adrenalina adolescente, a voz alterna entre o tom grave de desenho animado (para atenuar a comiseração) e uma urgência a raiar a paranóia. Berra "it ain''t gonna save me" e grita "say something" como se a face inexpressiva que imagina se recusasse a mexer um músculo. Termina o álbum, entre brumas shoegaze e orquestração dramática, belíssima, repetindo "there is no sun for me". O seu segredo está na forma como diz tudo isto. Porque estas canções onde guitarras acústicas funcionam como pano de fundo enriquecedor e as eléctricas se entregam a riffs garage, a cenários Devo ou a versões cabeludas dos Damned, são a negação daquilo que Reatard canta. A festa é contagiante e, estranhamente, a alma da festa está afogada em depressão. Nessa evidente contradicção, eis a glória da música de Jay Reatard.



