A escritora Maria Isabel Barreno situa em Cabo Verde o seu mais recente romance, "Vozes do Vento", sobre a história dos antepassados de seu pai, que simboliza a de muitas famílias do tempo da colonização portuguesa.
"Era o que me interessava contar, a história da família Martins, que eu já tinha começado em `O Senhor das Ilhas` [romance que publicou em 1994], que foi o primeiro Martins a ir para Cabo Verde e teve uma vida com bastante sucesso. Depois, já sabia mais ou menos que esta família tinha decaído [no século XIX] e quase desaparecido e, então, procurei o rasto dos filhos e de outros descendentes", disse Maria Isabel Barreno, em entrevista à Lusa.
Quanto ao género desta obra, editada pela Sextante, a autora considera tratar-se "basicamente de um romance", e não de um romance histórico, embora "boa parte seja mesmo uma verdade histórica".
Nas três viagens que efectuou ao arquipélago de Cabo Verde na década de 1990 para pesquisar sobre Manuel António Martins, "O Senhor das Ilhas", tirou muitas notas, muitas fotografias e ainda encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino registos "relativos a filhos e a alguns netos" dele, mas a história tem também "uma parte de ficção, sobre alguns membros da família", com coisas que deduziu, lhes atribuiu ou inventou.
O romance histórico, contrapôs, "tem um pouco mais a ambição de fixar uma época e eu não estava com a ideia de fixar uma época. Também lá aparece a História de Cabo Verde, mas de uma forma indirecta, como cenário, o fundo sobre o qual se passa a história desta família".
"Só se pode achar alguma semelhança com a História, na medida em que o que me interessou também nesta família foi o facto de ela reproduzir um pouco as muitas histórias da colonização portuguesa: houve sucessos e rápidas decadências", sublinhou.
Quando escreveu "O Senhor das Ilhas", a escritora, de 69 anos, tinha já a ideia de "ir para além dele" e "fazer a descrição completa do êxito, da grande riqueza, do sucesso que teve o primeiro fundador e, depois, da decadência, de todo esse percurso", mas "por razões variadas", interrompeu a escrita por algum tempo e só recentemente a retomou.
Para Maria Isabel Barreno, escrever é "agora um prazer", depois de, "ao longo da vida, ter passado por várias fases da escrita".
"Agora, escrevo quando me apetece. Se encontro algum sentido de expressão própria, de prazer, é quando escrevo. E os temas que escolho também estão de acordo com isso", explicou.
De entre as muitas funções que a literatura tem, uma delas é a de não deixar cair no esquecimento personagens como estas de "Vozes do Vento" e "às vezes, épocas inteiras, costumes...", disse a escritora.
"Há toda uma função de memória que, mesmo que não tenha sido o propósito expresso quando se está a escrever, acaba por ser o que faz a literatura", sustentou a autora, para quem a maior recompensa que um escritor pode ter é "ter público que o leia".



