No estúdio do artista Vik Muniz, o trabalho demorou pouco mais de dois meses a ser feito. A encomenda vem a caminho de Portugal. No Museu da Electricidade, em Lisboa, ultimam-se as luzes e os lugares das peças. Têm perto de 2,30 metros de altura e são fotografias, mas antes foram retratos esculpidos com terra portuguesa. A exposição “A Terra e a Gente” abre ao público no dia 18 de Outubro.
Vik Muniz tem um método singular. Escolhe um tema, elege o meio, concretiza as peças mas o que mostra, no final, são fotografias não menos elaboradas do conceito que levou horas de perícia a construir. O “portfolio” encomendado pelo Centro de Artes Visuais – Encontros de Coimbra, com o mecenato do BES e da EDP, conta com dez trabalhos originais, feitos a partir de fotografias de Amália Rodrigues, Fernando Pessoa, António Damásio, Siza Vieira, Cristiano Ronaldo e José Saramago e quatro paisagens.
“Fê-los com humildade e um grande fascínio por Portugal. É uma das primeiras encomendas que Vik Muniz faz a nível mundial. É um privilégio”, disse Albano Silva Pereira na apresentação do projecto. “Quando ele me pediu terra portuguesa percebi o rigor do trabalho. Criou volumes e texturas à volta da terra. Depois devolveu os materiais à fotografia”, acrescentou.
Vik Muniz é um artistas brasileiros mais solicitados. Em Portugal esteve em exposição duas vezes, uma em 1998 e outra dois anos depois em 2000. Conseguir um trabalho inédito sobre um conjunto de figuras simbólicas para Portugal, trazê-lo para uma conferência no dia da inauguração da exposição (17 de Outubro) e montar um “livro-objecto”, com as fotografias e textos de Clara Ferreira Alves, Delfim Sardo, Régis Durand e Shelley Rice foi, nas palavras do comissário, “um milagre”.
Joga com imagens
“O que mais me seduz é o paradoxo entre o fotógrafo e a fotografia. Reconstrói imagens mas faz tudo parte de um sistema”, disse Albano Silva Pereira.
Filipa Oliveira, comissária-adjunta da exposição explica: Antes de entrar no mundo das artes plásticas e da fotografia, Vik Muniz trabalhava no meio da publicidade. Um dia cansou-se e disse que já havia imagens em número suficiente no mundo. O caminho que então tomou, acrescenta a comissária, passou pela reutilização do que já existia.
Entre outras ideias, construiu nuvens de algodão onde se descortinam objectos, convidou crianças de favelas para imaginarem o seu objecto preferido e serem fotografadas a agarrar o vazio.
“O espectador só percebe o trabalho quando vê o jogo do artista. Por um lado as obras têm uma visão fácil mas depois há camadas conceptuais muito densas”, disse Filipa Oliveira.
“Na arte gosta-se ou não se gosta, ele já fez obras com diamantes, lixo dos carnavais do Brasil. É uma obra complexa”, acrescentou Albano Silva Pereira. “É muito interessante, muito polémico”.
Portfolio português
Ao todo foram precisos oito quilos de terra, de diferentes tonalidades. O comissário deixa o lado da concepção técnica para as explicações do artista na conferência. A iluminação no museu da electricidade, adianta, será “teatral” numa produção que está a ser preparada desde 5 de Setembro, desde o dia em que chegaram as primeiras fotografias em ponto pequeno. Sobre o trabalho final, que ainda ninguém em Portugal viu, o comissário diz apenas um “Eu imagino...”, acompanhado pelo receio das obras de arte em viagem.
Fazem-se as primeiras leituras do trabalho que vai estar em exposição até ao dia 16 de Dezembro. O retrato de Cristiano Ronaldo por exemplo, disse Albano Silva Pereira, mistura o “menino do Funchal com um busto romano”.
“Num certo sentido, a visão de Portugal que o sentido crítico e a inteligência de Vik Muniz concretizaram nestas fotografias possui o seu corolário na imagem de Cristiano Ronaldo, de olhos fechados, como se toda a sua habilidade e talento, toda a sua técnica e criatividade fossem o resultado de uma força interior, de uma terra”, escreveu o comissário.


