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Cenógrafa e figurinista

Vera Castro, autora de imagens fortes

08.02.2010 - 16:52 Por Joana Amaral Cardoso

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Na dança, no teatro, nas artes plásticas, na ópera – e nos figurinos, nos cenários, na pintura. Vera Castro, que morreu na madrugada de hoje de doença oncológica aos 63 anos, tocou várias disciplinas e leccionou na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC). A artista evoca sentimentos fortes, da “inveja” amigável ao “peso” de fatos e recordações de perda.

De Olga Roriz a Ricardo Pais, passando por João Lourenço, José Wallenstein, Né Barros, Jorge Listopad, Filipe La Féria, Cucha Carvalheiro ou Rui Lopes Graça, Vera Castro trabalhou com os mais conhecidos encenadores, coreógrafos e compositores na cenografia e figurinos. Em 1993, o seu trabalho na peça "Estrelas da Manhã" mereceu-lhe o Prémio da Crítica de Cenografia.

“Com pena minha só trabalhou comigo como figurinista e não como cenógrafa”, confessa Ricardo Pais ao PÚBLICO, no Teatro D. Maria II e no Teatro Nacional São Carlos. Gostou de trabalhar com alguém fácil no trato e com um gosto próximo do seu. E lembra: “Sempre me fez inveja o trabalho que fez para a Olga Roriz. Os figurinos de "Isolda" [1990, Ballet Gulbenkian, em memória de Madalena de Azeredo Perdigão] são inesquecíveis”. “A amizade que nos uniu desde o primeiro dia de regresso a Portugal após o 25 de Abril é tão grande quanto a admiração que tenho hoje por ela”, rematou o encenador.

Hoje, o Ministério da Cultura manifestou a sua “maior consternação pelo falecimento da artista plástica Vera Castro, cuja actividade criativa foi amplamente reconhecida pelos mais prestigiados profissionais na área da dança, do teatro e da ópera em Portugal”, destacando a sua actividade na docência, “no âmbito da qual muito contribuiu para a qualificação de novos profissionais das artes”.

Olga Roriz, amiga de Vera Castro há cerca de três décadas, sente ainda o peso dos figurinos de "Isolda". “Foi o nosso momento de união profissional, foram aqueles belíssimos fatos – ainda hoje me falam ‘daquela peça com os fatos vermelhos’”, recorda a coreógrafa. Sendo sobretudo figurinista de teatro, Vera Castro vestiu Isolda de forma “mais preciosa”, comenta Olga Roriz. A peça regressou na temporada 2008/9, desta feita ao Teatro Camões, pela mão da Companhia Nacional de Bailado, e para isso a coreógrafa andou, com Vera Castro, à procura dos fatos desaparecidos e a recolher outros para os repôr em cena. “Se tivesse trabalhado com outro figurinista, ir retirar o peso dos fatos, a dificuldade que era dançar com eles. Pesavam quilos, eram uma sensação de segunda pele e uma mais-valia à coreografia. Eram quase armaduras, dancei com eles e impunham-se na coreografia e na personagem”, enfatiza.

Reformada desde 2007 da ESTC, que ontem assinalava a “grande perda para a cultura em Portugal” que representa a morte de Vera Castro, a profissional esteve internada no Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, durante uma semana. Vera Castro nasceu em Angola em 1946 e desenvolveu também trabalho como pintora – o seu trabalho está na colecção do Ministério da Cultura e em colecções particulares, tendo exposto, entre outros espaços culturais, na Casa da Cerca, em Almada (2002), e na Galeria do Teatro Municipal de Almada (2007).

O funeral de Vera Castro sai amanhã da Basílica da Estrela o Alto de São João, onde o corpo será cremado pelas 11h.

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