O primeiro grande disco de Richard Hawley, "Coles Corner", de 2005, era uma homenagem à década que instituiu definitivamente a noção de canção clássica antes de ser atirada para o oblívio pelo nascimento do rock'n'roll: a de 50. Era o disco que Roy Orbison teria feito se o seu romantismo negro e rubro não tivesse nascido do grande "white trash" americano mas sim da "working class" inglesa: excessivo mas macerado pela culpa e pelo remorso, e simultaneamente tão contido como uma beata a medir o nível de chá na chávena.
Depois daquele conjunto de canções arranjadas com a delicadeza de um Burt Bacharach literato, Hawley atirou-se ao rockabilly em "Lady's Bridge". Agora regressa ao registo que mais convém à sua voz de barítono: lentas canções talhadas com mesura e adornadas com a sageza dos sobreviventes que preferiram a humanidade à amargura. Mas há mudanças de tomo e para as perceber basta comparar a epítome de "Coles Corner", "The ocean", com o seu correspondente de 2009, "Open up the door". Onde "The Ocean" era todo cordas sumptuosas como vagas quebrando junto aos nossos ouvidos e provocava um arrepio imediato, "Open up your door" usa as cordas de forma mais subtil e em vez de ondas que nos ultrapassam, tudo crepita lentamente, enquanto instrumentos inusitados (vibrafones, campaínhas, guitarras espanholas, etc) trazem à faixa uma fantasmagoria que ele nunca tinha alcançado. É essa a marca do disco: o uso de instrumentos esquecidos até pelos seus inventores: "glass harmonicas", "cristal baschets", um dulmicer, "pipe organs", etc. Os instrumentos de vidro trazem um ambiente espectral a faixas que, na essência, são country duvidoso, despojos de jukeboxes, sublinhando ainda mais o negrume de um disco marcado pela morte do pai de Hawley. Há discos que não inventam novos mundos, antes funcionam como calafetagem: isolam portas e janelas de modo que a nossa casa se torne o mundo inteiro. E "Truelover's Gutter" é a mais bela calafetagem deste ano.



