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Competição

Três tipos de solidão no Estoril Film Festival

08.11.2009 - 12:52 Por Luís Miguel Oliveira

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Les Beaux Gosses Les Beaux Gosses (DR)
Riad Sattouf é um jovem autor francês de banda desenhada, e Les Beaux Gosses, um dos filmes hoje em competição no Estoril Film Festival, é a sua estreia como realizador de cinema.

Centra-se num ambiente que parece ser da especial predilecção de Sattouf: o pequeno mundo dos adolescentes, com as suas obsessões invariavelmente ligadas a uma líbido saltitante. Seguimos um miúdo particularmente borbulhento (e o seu "melhor amigo", outro adolescente inacreditavelmente alheado de qualquer sentido de "estilo") no seu confuso caminho entre as obrigações escolares, o mar de raparigas que o rodeia, e a sua fixação em tudo o que tenha remotamente a ver com sexo. Às vezes tem aquele tom derrisório e sacrificialmente cómico daqueles Woody Allens de juventude que não se importavam de entrar em flirt com o humor desbragado e um bocado ordinário. É divertido e é fluido, e "projecta-se" contra a imagem dos adolescentes propalada nas séries de televisão (também em França há com certeza muitas equivalências para os Morangos com Açúcar).

Há algum "cartoonismo" a mais na definição das personagens - só depois de ver o filme descobrimos que Sattouf é autor de banda desenhada, e a descoberta é acompanhada de um "ah!". Mas esse lado "boneco", caricatural - bem diferente, menos subtil, dos adolescentes de Abdel Kechiche em A Esquiva, por exemplo -, acaba por ser equilibrado pela rede de personagens (inclusive as dos adultos, os professores e os pais) e pela consistência plausível do enquadramento social.

Uma outra história de adolescência, muito mais "etérea", muito mais "desligada", é a proposta pelo catalão Marc Recha em Le Petit Indi. Passa-se nos arredores de Barcelona e tem por protagonista um garoto razoavelmente afásico e bastante triste. A mãe está presa - não se percebe bem porquê - e o garoto tem a ideia de que se arranjar algum dinheiro pode ajudar a libertá-la. Como se entende melhor com os animais do que com os seres humanos, é com os animais que faz os seus planos. Treina pássaros para concursos de aves canoras, frequenta as corridas de cães.

Num estilo contemplativo "macio" (que não é necessariamente uma palavra pejorativa) e silencioso (traído por alguma música a mais, que às vezes parece querer apenas "encher"), servido por actores sempre na nota justa (o jovem protagonista, Marc Soto, mas também o conhecido Sergi Lopez), Le Petit Indi é uma muito razoável variação sobre o tema da solidão adolescente num mundo maioritariamente agreste temperado pelos acolhedores recantos do "mundo interior".

Duncan Jones é o filho de David Bowie e Moon a sua estreia na longa-metragem. Uma história de ficção científica, sobre um astronauta (Sam Rockwell) que está há demasiado tempo sozinho numa base lunar. Parece, claro, uma variação sobre a Space Oddity que há quase 40 anos fez muito pela popularidade do pai de Duncan Jones. Mas também sobre a Space Odyssey de Kubrick que Bowie glosara na sua canção, como se supusesse o que teria acontecido ao astronauta Dave, se o computador Hal não tivesse entrado em parafuso. O Hal, aqui, chama-se Gerty, tem a voz de Kevin Spacey e é um primo evidente do computador de Kubrick. Depois, doente de solidão, o astronauta começa a imaginar coisas, ou não: é o seu "duplo" que lhe aparece, por alguma contorção espácio-temporal, ou são apenas projecções da sua cabeça delirante?

Responder à pergunta é o que menos importa. Duncan Jones falou da ficção "metafísica" dos anos 70 - lançada, como é sabido, pelo 2001 de Kubrick - como referência prioritária para o seu filme, e Moon é uma variação, menor mas sempre curiosa (até por um certo gosto do anacronismo), sobre essa ficção científica que se joga no confronto entre o espaço sideral e o espaço mental. Estreia-se em breve, teremos ocasião de falar melhor sobre Moon.

Les Beaux Gosses, De Riad Sattouf, Centro Congressos, 16h.
Le Petit Indi,De Marc Recha, Casino, 22h.
Moon, De Duncan Jones, Centro Congressos, 18h.

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