Só o conhecido entrevistador televisivo Larry King e a sua equipa de produção conseguiram entrar ontem no rancho Neverland, o refúgio do malogrado cantor norte--americano Michael Jackson. Mas isso não desanimou as centenas de pessoas que, perante o anúncio do transporte dos restos mortais do artista para o local, já tinham planeado a viagem. Afinal, a família mudou de planos e decidiu que o velório e funeral de Michael não seguirá para as montanhas do vale de Santa Ynez. "
Tal como viemos para aqui, iremos para onde quer que seja... por acaso já sabe ao certo onde vai ser o funeral?", pergunta Elena Barajas. Não se sabe, como também ainda é incerta a data embora se aponte para terça-feira.
Elena, de 22 anos, e a sua amiga Diana Reyes, de 26, descontaram dias do seu calendário de férias para poder prestar homenagem ao seu ídolo. Ouviram em todos os noticiários que "não se passava nada" em Neverland, só que resolveram na mesma fazer a viagem de duas horas e meia para vir desde Costa Mesa até Los Olivos, população 1093 pessoas.
"É muito triste"
"Tudo por Michael Jackson. Ele era uma lenda", explica Elena, que veste uma T-shirt com a fotografia de Michael e constantemente ajusta um chapéu debruado a lantejoulas (com as iniciais MJ bem salientes), para lhe cair na cabeça exactamente como se vê na imagem estampada. Diana está mais discreta: não caprichou na indumentária, mas trouxe uma máscara recortada a partir da capa do disco Dangerous.
As duas dizem que cresceram com a música de Michael Jackson - "Lembro-me que era o que passava na rádio e na televisão, e agora que estão a repetir tudo outra vez, é como se estivesse a voltar à infância. Só que desta vez, em vez de ser uma festa, é muito triste." As mães também queriam vir, mas não puderam. Tal como as filhas, choraram ao saber da morte do cantor que tanto apreciavam. "Temos de tirar muitas fotografias para lhes mostrar", dizia Elena.
A "peregrinação" das duas amigas por todos-os-lugares-Michael-Jackson vai continuar. De Neverland vão ver a sua estrela no Passeio da Fama, em Hollywood, e, garantem, estarão ou no Staples Center ou no Coliseu de Los Angeles, os dois lugares onde se especula possam acontecer as cerimónias fúnebres.
A família Bryson, "infelizmente", não acompanhará as exéquias se estas se realizarem em Los Angeles. "A economia não está muito boa e não podemos viajar", lamentam. Ontem, estavam todos - pai, mãe, três filhas e um neto - na porta de Neverland. Chegaram pouco depois das sete da manhã e planeavam ficar até ao fim do dia. "Queremos prestar a nossa homenagem, e este era o lugar mais especial para ele", observou Rich.
Corrie Bryson, a matriarca, lembrou ao PÚBLICO a sensação "maravilhosa" de transpor os portões (que foram ornamentados por duas coroas funerárias).
"O Michael convidou as pessoas daqui das redondezas para vir conhecer o rancho. Nós viemos todos. Passeei por todo o lado, vi os animais, andei nos carrosséis. Não entrei na casa, mas o meu filho conheceu-o. Ele foi muito simpático e fez umas piadas."
Isso foi em 2005, pouco antes do início do julgamento por abuso sexual de um menino de 13 anos, que consumiu Jackson e acabou por afastá-lo do rancho. Corrie assistiu a todas as sessões no tribunal. "Ainda tenho as notas que tirei lá dentro. Via-se logo que aquilo era um processo totalmente inventado e que Michael estava inocente.Queriam destruí-lo, estavam atrás do dinheiro dele. E ele era uma alma tão generosa, era a vítima perfeita para gente sem escrúpulos."
Não foi de certeza assim que o escocês J. M. Barrie, autor de Peter Pan, imaginou a Terra do Nunca. É verdade que o espaço escolhido por Michael Jackson estava longe do mundo; não exactamente uma ilha povoada por fadas, sereias, piratas e Meninos Perdidos, mas ainda assim um complexo incrustado no relevo, protegido por uns portões relativamente discretos que escondem um mundo surreal, certamente mágico à sua maneira.
Mas escondido "no more": as bermas da estrada que serpenteia pelas pastagens e das redondezas estão pejadas de roulottes e carros de exteriores ao serviço de televisões de todo o mundo.


