A tribo de trovadores de guitarra acústica a tiracolo e palavras romantizadas na ponta da língua tem mais um membro. Nos últimos anos são incontáveis os que entraram para o grupo, mas existe sempre lugar para mais alguém, se tiver a transparência intemporal de Alela Diane, cantora e compositora originária do Nevada, Estados Unidos.
Na sua música não existe ironia. Melancolia propriamente dita também não. Apenas o tipo de clarividência que é capaz de transformar o seu álbum de estreia num registo folk embriagante. Alela é jovem, mas canta com a segurança de quem conhece por dentro a globalidade da história da música popular americana. No centro da actividade, uma voz de rapariga serenamente solitária, uma guitarra acústica que desenha no ar acordes circulares e melodias que anestesiam, confluindo para uma sonoridade austera e elementar. Sim, já ouvimos esta história muitas vezes nos últimos anos (de Cat Power a Joanna Newsom) mas contada por ela parece que estamos a aceder ao paraíso perdido pela primeira vez. É uma música fascinada pela memória dos lugares, pela história dos objectos, pelos cheiros que nunca mais se esquecem, pela natureza. Aqui a ruralidade não é curiosidade para burgueses enfastiados com a cidade. É a vida, ela mesma, tão encantadora quanto frustrante. Não é um disco feito por alguém que leve outros discos para a ilha deserta, como acontece com a maior parte da música-inspirada-noutra-música dos nossos dias. Ela certamente não levaria discos. Levaria apenas a sua guitarra acústica. Depois começaria a cantar, a assobiar ou a bater palmas. Isso bastar-lhe-ia. A nós também.


