Cada vez que se gaba um disco (ou livro ou filme) de um português há sempre meia-dúzia de saloias demonstrações de espanto perante a possibilidade de um nativo desta côdea de Terra produzir um objecto de mérito. O resto é o habitual cinismo, o discurso do charco, provinciano e amargo até à medula, e, lamentavelmente, demonstrativo de uma tremenda falta de conhecimento do país actual. Mas os descrentes desta vez podem ficar descansados: Shahryar Mazgani é filho de iranianos, e ao menos os iranianos hão de ter algum mérito.
Deste moço, morador na portuguesa cidade de Setúbal, cujo nome de família nomeia a própria banda, ficamos, logo ao primeiro disco, com a certeza de que tem mérito: dêem-lhe uma guitarra acústica, outra eléctrica, um órgão ou um arranjo de cordas, e ele atira com intestinos à pauta. Estamos perante um insuspeito caso de talento, um tipo que por entre uma muralha de guitarras arraçadas da melhor têmpera (colheita American Music Club de "Mercury", por exemplo) atira um "Oh my lover" desesperado que daria alguma inveja a miss PJ Harvey (em "Let your lips blossom in a kiss" – não se deixem assustar pelo título), isto depois de abrir o álbum com a belíssima "Song of a new heart", guitarras a cruzarem-se em acordes menores, a mesma fundura de uns Anywhen, como se os Chameleons convidassem um dos Buckleys (com metade das oitavas) para uma perninha na voz. Ao fundo uma guitarra em dia de falta de Prozac e os coros. Em termos simples: uma grande, grande canção a abrir. E não piora. Possuído por uma intensa espiritualidade (quase palpável, quase carnal, sintomático num devoto de Cohen), "Song of the New Heart" tem árvore genealógica reconhecível: curva do tronco que une os American Music Club aos Go- Betweens dos momentos mais escuros (e das guitarras esquinadas), com veios comuns aos Radar Bros, aos 16 Horsepower, aos Triffids – isto é: toda uma herança de decadentismo referencial à guitar€ra. Os 16 Horsepower vagueiam pela country com slide-guitar suja de "Crazy wind", mas não é preciso apontar referências ao magnífico arranjo de guitarra de "She said Dive". É este, então, o território: a canção clássica. Mazgani sentou-se à mesa com os melhores, passou as noites no mesmo motel em Joni Mitchell encontrou Cohen, leu a Bíblia que eles esqueceram na mesa de cabeceira, é bem possível que entre ser iraniano ou setubalense tenha encontrado uma família no "sadcore" americano dos anos 90. É essa aristocracia que senta à mesa com canções do calibre de “Somewhere Beneath This Sky”, foi essa gente que poliu as guitarras cruzadas de "Bring your love”, são essas as gargantas dos coros de "The night defeats the heart" (Mark Eitzel ainda vai fazer uma versão desta). E no dia em que o homem se exilar em Nashville, o fantasma de Graham Parsons sentar-se-á no alpendre com ele para uma versão da country fantasmagórica de "Lay down". É este o território. Agora, se isto vai pegar nesta côdea de Terra, não nos perguntem. Mas pouco importa: "Song of the New Heart" é um belíssimo disco de estreia, e Shahryar Mazgani um cantautor intenso servido por uma bela banda.



