Sérgio Tréfaut viaja por aeroportos portugueses com olhar comprometido

08.05.2011 - 11:07 Por Lusa, Sofia Branco, Lusa
À chegada aos aeroportos nacionais, “não há bons e maus”, mas “há um sistema estúpido”, acredita o realizador Sérgio Tréfaut. “Viagem a Portugal”, exibido hoje no festival IndieLisboa, é um filme assumidamente comprometido.
Para o filme “Lisboetas”, Sérgio Tréfaut teve aulas de russo para poder comunicar com a comunidade ucraniana em Lisboa e quando a professora, ucraniana, lhe contou a sua receção no aeroporto de Faro, onde aterrou para vir encontrar-se com o marido zairense, ficou “impressionado com uma história absurda”.
Há, portanto, muito de real em “Viagem a Portugal”. A médica ucraniana Maria (interpretada por Maria de Medeiros) vem passar o ano com o marido (senegalês no filme, interpretado por Makena Diop), a trabalhar nas obras da Expo’98. É interrogada por uma inspectora já vestida para passar o ano (interpretada por Isabel Ruth), que lhe barra a entrada. Dorme na cela do aeroporto, de onde ouve o fogo de artifício em toda a cidade. Saturada, acata comprar bilhete de volta para a Ucrânia. Voltará por terra, mais tarde.
A história passa-se em 1998, ano “emblemático” de um Portugal que “era o país do futuro”. Para atestar que nada havia de El Dorado em Portugal, o realizador recorda, em conversa com a Lusa, a diminuição de imigrantes oriundos de Leste e critica a “má administração do Estado de um capital humano tão rico”.
Puseram “pessoas qualificadíssimas a trabalhar nas obras”, o que é “particularmente irónico” agora, quando “se importam médicos da Colômbia e de Cuba”, reflecte.
“Não posso dizer que as fronteiras não façam sentido nenhum”, mas “há um grau de irracionalidade enorme” na “fortaleza Europa”, realça.
Tréfaut fez “um filme bastante comprometido com a realidade” - tão comprometido que a exibição é acompanhada por um dossiê de “enquadramento político”, que inclui estatísticas de expulsões.
“Dez pessoas por dia, aproximadamente, chegam aos aeroportos e não chegam a entrar no país, são imediatamente recambiadas”, aponta.
Quis fazer um filme sobre “os interrogatórios que ocorrem diariamente nos aeroportos, que são, no caso português, completamente secretos”. Ao contrário de França -- contrapõe --, que permite o questionamento do Estado ao permitir o acesso de advogados e organizações.
“Acho fundamental que as instâncias de poder sejam questionadas”, defende. E se, por um lado, “há um perpétuo abuso das instâncias de poder, que são impunes, fazem o que querem sem que ninguém as critique”, por outro, a sociedade civil em Portugal é “cega, surda e muda”, critica.
Em “Viagem a Portugal”, as cartas não estão dadas desde o princípio -- num posto de fronteira, o que sabemos das pessoas que aparecem? Tréfaut quis dar “dois pontos de vista” e chega mesmo a repetir diálogos para que possamos ver as expressões de interrogados e interrogadores. Pretendeu “pôr o espectador à distância”, para que questione a realidade.
Há “um enorme desinteresse” por quem poderia contar estas histórias, lamenta o realizador, criticando os jornalistas por, queixando-se da falta de espaço, também não escreverem livros para uma opinião pública “interessada”.
“Viagem a Portugal”, uma das seis longas-metragens nacionais em competição no IndieLisboa, passa hoje, às 21h45, no Cinema São Jorge (com repetição no dia 11, às 21h30).
Notícia corrigida às 13h01

