Temos de agradecer aos Animal Collective por terem dinamitado a ideia de canção pop com sorriso radiante e um tão meticuloso quanto tresloucado desdém pelas regras. Temos que lhes agradecer por "Sung Tongs", "Feels" e por tudo o que fizeram antes, terem escancarado as portas da música popular aos sonhadores que chegassem depois. Os Ruby Suns, banda de Ryan McPhun, um californiano na Nova Zelândia (não confundir, nunca confundir com um inglês em Nova Iorque, que esse chama-se Sting e não interessa), são uns desses magníficos sonhadores pop que o mundo pós-Animal Collective permite conceber.
"Sea Lion", o seu segundo disco e, de acordo com os relatos, aquele em que a história da banda começa verdadeiramente, revela neles uma curiosidade infantil: perceptível na forma como observam a realidade, recusando analisar e compartimentar aquilo que vêm. Os Ruby Suns são miúdos "indie" a correr de lugar em lugar, de som em som. Ou seja, e resumindo, são miúdos "indie" a imaginar-se Willy Fogg. Em "Tane mahuta" cantam letras em maori, apoiados por guitarras acústicas e vibrafones, e dançamos com eles em orlas florestais imaginárias - continuamos a dançar quando a canção é invadida por trompetes mariachi de desenho animado. Sim, há rancheras na terra dos Kiwis: tudo é possível em "Sea Lion". Folk bucólica trespassada por sons resgatados à rua ("Blue penguin") e a imagem de pessoal à volta de uma fogueira, tocando de memória o "Smile" de Brian Wilson - chama-se "Oh, Mojave" e a piada está na deformação da coisa. Harmonias corais de quem não acredita em Deus, mas acredita em Panda Bear e em "Person Pitch" ("It's Mwangi in front of me"), e, em "This adventure tour", danças havaianas em episódio da "Ilha do Tesouro" (isto se os anfitriões da "mítica" série recebessem os hóspedes com um charro numa mão e um gravador de quatro pistas na outra). Os Ruby Suns pegam na realidade para a deformar (ou aperfeiçoar, depende da perspectiva): vêm-na com os "olhos caleidoscópio" da Lucy de John Lennon. Misturam universos musicais como os Animal Collective e berram "a imaginação ao poder" - mas fazem-no como os Olivia Tremor Control, esses génios tresloucados, não como sobreviventes do Maio de 68. Interessam-lhes canções e interessa-lhes sabotar as suas formas canónicas. É certo que por vezes vão longe demais - tem piada a despedida com pop sintética à New Order, mas não sabemos que raio faz aquilo no disco - e é certo que, neste momento da história, a música que criam não nos arrebata pela novidade. Conscientes disso, voltamos ao princípio. "Sea Lion" é apenas o início da história dos Ruby Suns e eles, olhos de Lucy postos no mundo à sua volta, criam belíssimas canções pop danificadas. Por agora, é mais que suficiente.



