Se Dan Brown não é maçon, andou lá muito perto para escrever "O Símbolo Perdido"

30.10.2009 - 12:11 Por Isabel Coutinho
Homens livres e de bons costumes, os maçons são retratados no novo livro de Dan Brown. Dois especialistas apresentaram em Lisboa o romance na noite em que ficou à venda.
Quando António Lopes, director do Museu Maçónico Português, chegou ao fim das 571 páginas de "O Símbolo Perdido", o novo romance de Dan Brown, sentiu que estava "muito bem feito" do ponto de vista da simbologia maçónica e viu-se perante dois livros. "Se este livro for lido por um maçon, ele consegue compreender as expressões que lá estão e sabe o seu significado. Mas também há um outro livro. Se não soubermos o significado daquelas expressões, lemos uma história completamente diferente", explicou o historiador, anteontem à noite, na apresentação da obra na FNAC Vasco da Gama, em Lisboa, antes de o livro começar a ser vendido (à meia-noite).
Na opinião deste membro do Grande Oriente Lusitano, se cada frase deste romance for devidamente "digerida e reflectida", é possível aprender muito sobre maçonaria. O autor demonstra conhecer muito bem os rituais, o que não significa que seja maçon. "Provavelmente não é", disse António Lopes, acrescentando que em alfarrabistas e em bibliotecas se encontram descrições de grande parte destes rituais: não são segredo.
"Por tradição, a maçonaria não identifica os seus membros vivos, a não ser que o próprio aceite divulgar o seu nome. Se Dan Brown disse que não é maçon, pode ser ou pode não ser. Se ele disse que sim, de certeza que não o é."
O escritor norte-americano não publicava um romance desde 2003, altura em que lançou "O Código Da Vinci", e os tempos que antecederam a publicação do novo livro foram de grande expectativa para os maçons. José Manuel Anes, que foi grão-mestre da Grande Loja Legal Regular de Portugal entre 2001 e 2004 e também participou no debate, lembrou a tensão que se sentia nos grupos de discussão maçónicos na Internet. "O que virá dali?" era a pergunta mais colocada a propósito do romance. Mas no dia a seguir ao lançamento internacional do último livro, a 15 de Setembro, os maçons respiraram de alívio. Várias pessoas comentavam que o romance era óptimo, era propaganda à maçonaria, era magnífico. Um "contentamento generalizado" notou-se nesses fóruns, conta José Manuel Anes, que considera ser este o livro mais interessante de Dan Brown e até o mais bem escrito. Como aborda a maçonaria americana, fala da história da América e dos seus fundadores. "São indissociáveis. Nesse sentido, este livro é como disse a revistaTime: uma ode à América."
Para os especialistas portugueses, em "O Símbolo Perdido" perpassa a ideia da questão dos valores da maçonaria. "A maçonaria, de que o autor fala e existe, é uma organização de homens livres que se reúnem para discutir tudo", explica António Lopes, para quem a honra e a palavra são aspectos destacados ao longo da história contada por Dan Brown. Também por lá passa a ideia de que não basta ser-se iniciado para se aceder ao conhecimento. "O livro fala muito da questão da sabedoria, do conhecimento e da sua partilha. Há uma frase lapidar no livro que diz que "a ignorância é o que ajuda o caos a crescer". Fez-me lembrar a frase de um amigo meu maçon açoriano, já falecido, que dizia: quem não partilha o conhecimento nunca deixará de ser medíocre."
Outra questão ali abordada é a de que os antigos tinham conhecimento e de que num maçon há a constante procura da sabedoria. "O livro leva-nos também a considerar a tolerância, o respeito pelo outro." António Lopes discorda, no entanto, da ideia que o livro dá, de um certo secretismo da maçonaria e da afirmação de que os membros do 33.º grau são raros. "Não são poucos, nem raros", afirma. "A maçonaria foi secreta enquanto era ilegal. Quer durante o Estado Novo, quer durante alguns regimes políticos da Europa. Não é simpático para um ditador que haja um grupo de pessoas que se reúna para discutir. Aí, sim, era ilegal, era secreta." Agora já não é. A Lisboa falta Dan Brown

