• Coentros para matar a sede
  • Casa portátil distinguida em concurso mundial
  • Os melhores biquínis e fatos-de-banho deste Verão

Dramaturgo irlandês faria hoje 100 anos

Samuel Beckett: o homem que revolucionou o teatro

13.04.2006 - 08:11 Por Joana Gorjão Henriques, PÚBLICO

  • Votar 
  •  | 
  •  1 votos 
Beckett recusava explicar as suas obras e fugia dos jornalistas Beckett recusava explicar as suas obras e fugia dos jornalistas (Fran Caffrey/NewsFile)
Limpou do palco tudo o que é acessório reduzindo-o ao essencial. Criou tensão dramática com a inacção e fez do aborrecimento um tema. Escreveu peças sem "argumento", com personagens sem história e sem passado, e instituiu o monólogo. Este minimalismo de Samuel Beckett, que faria hoje 100 anos, revolucionou o teatro há meio século e, concordam especialistas, ainda não foi superado.

Beckett era um homem tímido com o rosto marcado por rugas no final da vida, uma imagem que se tornou um ícone. Recusava explicar as suas obras, tinha pudor em falar da sua vida privada, era intransigente em relação à encenação das suas peças. E isto contribuiu para o mito que se criou à sua volta.

Dublin, a capital da Irlanda onde nasceu mas de onde saiu (viveu em Paris), cobriu-se nestes dias com a sua imagem, e organiza um festival dedicado ao dramaturgo, escritor e poeta irlandês, que escreveu várias peças em francês.

Em Lisboa, o Teatro Municipal São Luiz programou Parabéns Samuel Beckett, com coordenação da actriz Graça Lobo. Vão ser projectados vídeos das suas peças, como Fim de Partida, Dias Felizes, Embalada ou Sopro, pelo artista plástico Damien Hirst. Para falar sobre a vida e obra, juntam-se, às 18h, Graça Lobo, o crítico e poeta Pedro Mexia, Pierre Chabert, actor, encenador e amigo de Beckett, e Derval Tubridy, especialista em linguagem beckettiana e professora no Goldsmiths College de Londres.

À Espera de Godot não é para alguns a obra preferida, mas é para muitos a única que conhecem. Foi esta peça de 1953, a primeira a ser encenada, que mudou o teatro: não se passa nada, apenas duas personagens matam o tempo com repetições, à espera que chegue Godot. Aqui Beckett mistura o music-hall, o burlesco, o vaudeville, Buster Keaton e Chaplin. Quando estreou, em Paris e em francês, o dramaturgo Jean Anouilh escreveu: "É uma obra-prima que vai causar desespero aos homens em geral e aos dramaturgos em particular." O primeiro encenador da peça em inglês, Peter Hall, explica porquê no Guardian: "Godot oferecia um palco vazio, uma árvore e duas figuras que esperavam e sobreviviam. Nós imaginamos o resto. O palco era uma imagem da vida a passar - na esperança, desespero, companheirismo e solidão (...). Desde Godot que o palco é um lugar de fantasia." E de humor, porque Beckett também é um mestre da ironia.

Um biógrafo, Anthony Cronin, chamou-lhe o "último modernista". "Revolucionou o teatro mas ainda não foi revolucionado", diz Julie Campbell, investigadora e professora na Universidade de Southampton, que estudou a influência de Beckett na literatura.

Criou uma linguagem nova

A especialista espanhola María Antonia Rodríguez Gago, também tradutora e professora na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad Autónoma de Madrid, diz que antes de Beckett era "impensável representar obras de Shakespeare em espaços vazios", como era impensável a proliferação de monólogos. "O mais importante é que une todos os elementos cénicos, a palavra, o gesto, o movimento, as pausas, os silêncios e trabalha-os em uníssono. Era um compositor quase musical e plástico ao mesmo tempo. Levava tudo ao limite, por isso criou uma linguagem nova."

A revolução do dramaturgo, que nas peças dá indicações ao mínimo pormenor e deixa pouca margem aos actores e encenadores para saírem da sua partitura, foi sobretudo o "regresso à linguagem da cena", diz a espanhola.

Estes especialistas - que estiveram em Lisboa a convite do Teatro da Comuna a propósito da encenação de João Mota de Todos os Que Caem - referem a importância de autores que lhe seguiram e que por ele foram influenciados como Harold Pinter, também Prémio Nobel da Literatura, Edward Albee, Tom Stoppard ou David Mamet. Mas nenhum indica um nome que tenha mudado tanto o teatro como Beckett.

Estatísticas

  • 82 leitores
  • 0 comentários

Artigos Relacionados

URL desta Notícia

http://publico.pt/1253811

Comentário + votado

X

Mais em Cultura (3 de 8 artigos)

As férias em família de Rod Stewart