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Documentário sobre Salavisa estreia hoje

Salavisa: E, no entanto, ele dança

26.09.2011 - 12:32 Por Lucinda Canelas

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Filme estreia hoje às 21h no Teatro Municipal S. Luiz Filme estreia hoje às 21h no Teatro Municipal S. Luiz (Cortesia filmes do tejo)
Marco Martins queria pô-lo a dançar. Sabia que para olhar para os 50 anos de carreira de Jorge Salavisa teria de mergulhar em muitas horas de imagens de arquivo, mas tinha esperança de encontrar algumas em que o homem que dirigiu o Ballet Gulbenkian e a Companhia Nacional de Bailado se revelasse o bailarino que foi durante tantos anos, 18 dos quais fora de Portugal.

A tarefa acabou por ser mais difícil do que o realizador estava à espera, mas o documentário que estreia hoje às 21h no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, a casa de Salavisa entre 2002 e 2010, mostra-nos mesmo como ele dançava. "Aquela sequência do "Othello" [Salavisa como Yago numa produção do New London Ballet] é uma prenda para o espectador", diz ao PÚBLICO Marco Martins.

Não é de estranhar que o realizador de 39 anos nunca o tivesse visto dançar. Aos 71, foi também a primeira vez para o próprio Salavisa: "O Marco mostrou-me aquelas imagens, que me deixaram muito assustado, e pus-me a pensar: "Foi preciso chegar aos 70 anos para ver isto." É que nesta altura em que qualquer um filma com o telemóvel, as pessoas têm dificuldade em imaginar uma época em que não havia vídeo e só as televisões filmavam a dança e o teatro que se fazia. Eu tinha visto uma ou outra cena em que eu aparecia, mas só por instantes. A dançar, assim, nunca tinha visto."

"Jorge Salavisa - Keep Going" (Filmes do Tejo em co-produção com a RTP2, a Gulbenkian e a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da Câmara de Lisboa, a EGEAC) é um documentário de uma hora em que Marco Martins traça a carreira do antigo bailarino e director artístico, recorrendo a arquivos em Lisboa, Londres, Paris e Hong Kong. A narrativa é cronológica, autobiográfica (na primeira parte essencialmente em voz off, a do próprio Salavisa), e fez-se com base em memórias pessoais e em três entrevistas formais feitas pelo realizador.

Marco Martins é um estreante neste formato mais clássico de documentário (antes tinha feito "Fragmentos de um Diário", sobre fotógrafos japoneses, mas numa abordagem muito mais pessoal). "Quis mostrar essencialmente o lado mais desconhecido do Jorge, o do intérprete. Era esta a ideia inicial, que se confirmou depois nas nossas conversas em casa dele, em lanches e jantares de fim-de-semana", diz Martins. E lá está Salavisa muito jovem, entre os bailarinos da companhia do marquês de Cuevas, que ele define como "uma grande escola", nos estúdios de dança, falando de produções como "Copélia" e "A Bela Adormecida", contando a deserção do mítico bailarino russo Rudolf Nureyev, das conversas de camarim com a diva Margot Fonteyn, com quem chegou a dançar, das pernas de Zizi Jeanmaire, a estrela da maioria das produções (e da vida) de Roland Petit.

"Este filme foi o que o Marco quis que fosse. Não gosto de me meter. Tinha de ser um objecto que lhe desse prazer", explica Salavisa. "Mas acabou por me pôr a fazer uma coisa que nunca tinha feito: olhar para trás, para o meu passado. E é curioso porque percebi que o que o filme faz acaba por ser uma espécie de história da dança em Portugal nos últimos 50 anos, com uma homenagem a grandes bailarinos estrangeiros que conheci e estão um pouco esquecidos."

Recordar foi um exercício que Salavisa acabou por levar mais longe - nos últimos cinco meses esteve a escrever, "de manhã à noite", as suas memórias, que a Dom Quixote vai publicar no próximo ano. "É extraordinário ver como o corpo mudou tanto desde o tempo em que eu dançava [parou aos 35 anos, com uma extensa carreira internacional, para dirigir o Ballet Gulbenkian]. Não foi só a técnica que evoluiu, o físico é hoje muito mais poderoso." Agora, o que quer é parar para ler, para ficar em casa. "Preciso de umas férias grandes. Mais do que isso, aos 70 anos, mereço umas férias grandes."

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