Texto publicado originalmente no Ípsilon a 8 de Fevereiro de 2008

Ruy Duarte de Carvalho dá a ver o que tem andado a dar a ler

12.08.2010 - 16:18 Por Adelino Gomes

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Ruy Duarte de Carvalho em 2007 Ruy Duarte de Carvalho em 2007 (Nuno Ferreira Santos)
Ruy Duarte de Carvalho pode agora dar a ver o que tem andado a dar a ler. Agradecidos ficam os leitores, e os futuros descobridores, por se mostrar e discutir a obra deste antropólogo e escritor angolano, cineasta, fotógrafo e poeta e já agora viajante, característica disseminada nas restantes a quem se dedica um ciclo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de 11 a 17 (ciclo a que já tiveram direito os escritores Paul Bowles e Thomas Bernhard).

É nessa ocasião que será lançado um livro de textos do autor, "A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita.", haverá debates sobre a sua escrita (dia 12, 18h30) participam António Mega Ferreira, David Borges, Osvaldo Silvestre, Luís Quintais e sobre a imagem na sua obra (dia 13, com participações de Miguel Vale de Almeida, Paulo Branco, José Eduardo Agualusa, Teresa Nicolau e Catarina Alves Costa).

A ideia surgiu de Mega Ferreira, seu leitor assíduo e administrador do CCB, que, como nos contou, quis tornar mais visível o caso raro de "um grande escritor de língua portuguesa, cuja obra se distribui por diversos campos de actividade permitindo uma abordagem multidisciplinar ao seu universo".

Ruy Duarte de Carvalho já fez muitas peças de vidro colorido para rodar no espelho do caleidoscópio (preparem-se para a enumeração). Nascido biologicamente em Santarém, rumou com a família para Angola, onde trabalhou como regente agrícola em café e pecuária. Foi criador de ovelhas e fabricou cerveja. Escreveu poesia distinta da dos poetas engajados, sem deixar de o ser. Estudou cinema em Londres. Realizou filmes para televisão e para o instituto de cinema angolano, entre os quais "Nelisita" (1982), programado para este ciclo.

Fez o doutoramento em Antropologia em Paris sobre pescadores da costa de Luanda, tese com o título "Ana a Manda" (1989). Continuou a pesquisar em Angola e não só, enquanto leccionava em universidades de Luanda, São Paulo, Coimbra brevemente será a vez de Berkley, Califórnia.

A sua poesia encontra-se reunida em "Lavra" (2005) e os livros "Vou lá Visitar Pastores" (1999),"Actas da Maianga" (2003), "Os Papéis do Inglês", "As Paisagens Propícias" (2005) e "Desmedida" (2007) transfiguram-se de ficção, ensaio, antropologia e literatura de viagem, revelando interesses e subjectividades numa "meia-ficção-erudito-poéticoviajeira", nas palavras do autor.

Podiam-se contar outras histórias ligadas a essas: a de um angolano "de opção e condição" que andou por Gabela, Calulo, Catumbela, uma temporada na Europa, e que no regresso filmou, em plena noite da proclamação da independência, a bandeira angolana a substituir a portuguesa.

A de um curioso que entre viagens (uma a Cabo Verde para outro filme que também vamos ver no ciclo, "Moia, Recado das Ilhas"), foi ficando no Namibe, no Sul de Angola, onde estudou o povo kuvale e as suas formas de organização.

A de um olhar analítico que pensou a ocidentalização do país e as implicações da guerra a partir da sua varanda na Maianga (e as várias maneiras de ver Angola, dentro e fora).

Ou a de um apaixonado pelo sertão que seguiu o rio São Francisco, o território de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha, no Brasil, que lemos em "Desmedida".

Geografia afectiva

Para incluir este modo de convocar tudo e dar uma ponta com nó, pensou-se o ciclo como um "microcosmos da multiplicidade de discursos e textos da sua [Ruy Duarte de Carvalho] obra mas que permitisse a apreciação de cada elemento individualmente", explica ao Ípsilon José António Fernandes Dias, o comissário da exposição. Esta, intitulada "Essa maneira de convocar tudo", exibe fotografia, desenhos, documentários e textos, atravessando os lugares por onde o escritor andou e cartografou pela escrita e não só, numa geografia também afectiva que nos direcciona no percurso de uma obra.

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