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Festa Literária Internacional homenageia Saramago

Rushdie e Henrique Cardoso à conversa sobre Maquiavel em Paraty

06.08.2010 - 10:25 Por Isabel Coutinho, em Paraty

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O escritor lança agora mundialmente o livro "Luka e o Fogo da Vida" O escritor lança agora mundialmente o livro "Luka e o Fogo da Vida" (Dylan Martinez/Reuters)
O escritor britânico Salman Rushdie conversou com o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso na Festa Literária Internacional de Paraty sobre "O Princípe" e as ideias de poder e virtude.

Salman Rushdie entra bem disposto, de chapéu branco, e acompanhado do filho no espaço de leitura Casa dos Clássicos Penguin-Companhia das Letras em Paraty, no Brasil, onde está a decorrer a 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

O escritor está pela segunda vez na FLIP e lança agora mundialmente o livro "Luka e o Fogo da Vida", que será publicado em Portugal em Novembro, ao mesmo tempo que nos Estados Unidos. O romance é uma continuação de "Harun e o Mar de histórias".

E na Casa dos Clássicos, o autor de "Os Versículos Satânicos" encontra-se com o ex-Presidente brasileiro e sociólogo Fernando Henrique Cardoso que ontem à noite fez a conferência de abertura da Festa Literária de Paraty, onde falou sobre o autor que é homenageado este ano: o sociólogo e antropólogo Gilberto Freire e o livro "Casa-grande & Senzala".

Os dois falam para uma plateia de convidados sobre "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel, editado nesta colecção dos Clássicos da Penguin/Companhia das Letras com um prefácio de Fernando Henrique Cardoso. E a conversa mediada pela antropóloga e professora universitária Lilia Moritz Schwarcz é transmitida em directo para a Tenda do Telão, um dos espaços onde se podem assistir às conferências dos escritores convidados.

"Um dos pontos fortes de O Príncipe é que Maquiavel lida com factos, ele é prático", diz Fernando Henrique Cardoso. "Maquiavel estava preocupado em saber se era possível um homem poderoso ser bom", acrescenta Salman Rushdie na Casa dos Clássicos. "Em O Príncipe ele diz que acha não." Rushdie sente que a história acabou por trazer um tratamento injusto para Maquiavel porque o seu nome acabou por ser associado a um certo tipo de cinismo, imoralidade e rudeza na política e ao advogar dessas mesmas práticas. "É preciso ver em que condições é que O Príncipe foi escrito", atentou, falando ainda sobre a tortura a que o autor foi submetido, uma das razões "para este homem" não gostar de príncipes.

"E temos que falar também de ironia. Neste período havia um género de literatura que era a convenção: o príncipe contratava um escritor para escrever sobre ele e o quão maravilhoso que ele era (as suas batalhas, a sua inteligência, como era bonito, os seus desejos) e estes livros tinham uma grande tradição na Itália daquele tempo. E Maquiavel utilizou precisamente este formato, destes livros dos príncipes, para acabar com a ideia do príncipe. É preciso que olhemos também para o contexto literário em que a obra foi produzida. Era profundamente irónico mas como perdemos esse contexto, esses livros já não existem e deixaram de se escrever, temos dificuldade em perceber." E Rushdie acrescentou: "O Príncipe não é um elogio às acções de príncipes, mas sim uma observação da época."

Fernando Henrique Cardoso concluiu: "O objectivo do príncipe é a manutenção do poder. Isso não se aplica mais. Hoje temos eleições".

Saramago com estreia cinematográfica

À entrada da Casa dos Clássicos existe um espaço dedicado ao escritor português José Saramago que irá ser homenageado nesta FLIP com a exibição do filme "José & Pilar", do realizador português Miguel Gonçalves Mendes, co-produzido pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles.

Além de fotografias, neste espaço passa um vídeo filmado durante o lançamento de "A Viagem do Elefante" no Brasil e está ainda disponível um gigantesco livro de recados que quem por lá passar pode assinar. O livro será enviado para a viúva do escritor, Pilar del Río, que nesta edição não virá ao Brasil.

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