Arbouretum

Rites Of Uncovering

12.04.2007 - 12:15 Por Mário Lopes, PÚBLICO, Thrill Jockey; distri. Dwitza

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Pondo de parte questões políticas e sociológicas, o punk apareceu no final dos anos 70 por uma razão simples. Basicamente, o rock'n'roll tinha-se tornado um lugar aborrecido, cheio de virtuosos e "pinups" de camisa aberta e cabelos encaracolados, ponte entre a "freakalhada hippie" de 60 e os tenebrosos yuppies cocainados de 80.

Com o punk voltou a agitação, ancorada em novo escavar de um fosso geracional, reinventaram-se estéticas e atraiu-se para a sua órbita outras expressões artísticas. Com ele, inaugurou-se uma desconfiança, que permanece até hoje, no rock como música com gravidade, no rock como possibilidade musical em si mesmo – o terror do "solo", ainda que a maior parte das vezes justificado, nasce aí (tivemos demasiados burocratas obcecados com a técnica a dar-lhe mau nome, a torná-lo um insuportável afagar de ego). No gueto do metal e seus afluentes, comunidades orgulhosamente viradas sobre si, essa dimensão dita "séria" sobrevive – mas raramente faz mais que pregar aos convertidos. Neste contexto, os Arbouretum têm tudo para ser olhados com desconfiança. Para começar, têm o nome que têm. Para contrabalançar, também referem "O Céu Que Nos Protege", de Paul Bowles, mas adiante – isso é pormenor que interessará dentro em breve, não agora. Falávamos do nome pomposo. Avançamos dizendo que, para descrever "The Rites Of Uncovering", o segundo álbum dos Arbouretum, teremos que referir a dimensão épica de canções prolongadas por nove minutos, teremos que falar das duas guitarras e dos solos que se entrelaçam, teremos que referir os Black Sabbath e os Grateful Dead – se quisermos ser precisos – e acrescentar-lhes Neil Young, Fairport Convention, Jimi Hendrix ou 16 Horsepower – se quisermos ver o quadro completo. Formados por David Heumann e Walker David Teret, duo que se juntou ao acompanhar Bonnie "Prince" Billy, os Anomoanon do irmão deste, Paul Oldham, ou Cass McCombs, os Arbouretum revelam no seu segundo álbum um falso anacronismo. Há nestas canções algo de ancestral: ancestral nos ecos da folk britânica que marcam algumas melodias – a belíssima "Tonight's a jewel" podia ser canção de um Alasdair Roberts liderando os Quicksilver Messenger Service –, ancestral por nos parecer longínqua a épica majestosidade com que abordam a "coisa" rock – a transcendência em duas guitarras, baixo e bateria, sem nada mais e firmemente ancorada no formato rock'n'roll como definido pelos "viajantes" de 1960 e 1970, parece não ter lugar no mundo de infinitas contaminações de 2007. No entanto, esse "falso anacronismo" é a maior força de "The Rites Of Uncovering". Porque passa por ele uma vertigem de morte – "Tonight, tonight/ The absence of life", cantam na magnífica catarse de "Pale rider blues" –, um desejo de se tornarem invisíveis no mundo – talvez venha daí a referência a Paul Bowles – que, em vez de discretamente, expressam de forma bombástica. Se os Black Sabbath e os Fairport Convention estão diametralmente opostos, os Arbouretum unem-nos num mesmo corpo (os Grateful Dead e os 16 Horsepower também podiam servir como exemplo). Está tudo em "The Rise", a melhor canção do disco. Sobre o ritmo seco da bateria, ouvimos vozes harmonizadas cantando um folk matizado pela passagem do tempo – há uma dimensão de assombração naquele coro. A assombração há-de libertar-se e levitar nas ondas eléctricas quando o "groove" cósmico se liberta, quando Hendrix e Jerry Garcia se confrontam até nada mais restar que guitarras destruídas expelindo ondas de feedback – e, sobre elas, erguer-se-á novamente o coro de assombrações: "Oh, the rise!", ouvimo-lo repetir. Andam para aí a chamar aos Arbouretum "doom folk", mas não se deixem enganar. Isto é sério e muito antigo. Isto é rock. Bom rock.

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