Reportagem: Das aldeias de Bragança a um atelier no Porto

07.11.2009 - 19:38 Por Alexandra Lucas Coelho
A Casa Grande de Trás-os-Montes está metade em ruínas, metade renovada. O anfitrião Manuel Ferreira foi guia e conselheiro do filme. O seu filho Luís, também arquitecto, era a criança protagonista, e hoje tem uma obra que vai das aldeias transmontanas a revistas internacionais. Regresso aos lugares de António Reis e Margarida Cordeiro. Segunda parte.
Estava dito.
Deixamos as terras de Miranda pela estrada às curvas, a portuguesa. Uma hora e picos até Bragança, a tempo de ir almoçar ao Largo do Sé. Bem se lembram os donos do Solar Bragançano da estreia de Trás-os-Montes em 1976. E a gente do filme veio cá comer, incluindo o convidado especial Miguel Torga.
Estreia tranquila, nada como veio a ser em Miranda.
É em Bragança e à volta que acontece a primeira parte de Trás-os-Montes. Para chegar à mais enigmática casa do filme há que subir ao castelo, passar as tílias do pelourinho, a torre, a igreja, e teremos à nossa frente a Domus Municipalis, espécie de pentágono em pedra, 38 janelas, banco corrido, cisterna por baixo.
Aqui se terão reunido os homens-bons medievais, e é aqui que António Reis e Margarida Cordeiro filmam a leitura de uma carta de Dom Dinis com roupas de 1974. Cá fora, a vista vai longe e uma árvore há-de lançar a sombra dos seus ramos sobre a fachada.
Por estas serras correm o Luís e o Armando no filme, vestidos de pajens. Rebolam na palha, comem maçãs, enfiam-se num castanheiro, estão dentro de uma história, talvez a da princesa Branca Flor, que uma mãe conta à lareira. É um Verão de infância, como antes foi Inverno, e eles foram ao rio, e o Luís encontrou uma truta dentro do gelo, parada para sempre.
Telefonámos-lhe - ao Luís. Espera-nos segunda-feira, no seu atelier do Porto.
Também telefonámos ao pai, dono da Casa Grande do filme. Vamos lá amanhã, domingo.
Só não veremos Armando, companheiro de aventuras de Luís. Está longe, no funeral da sogra, e só volta dentro de dias.
A casa de Palácios
Dez da manhã, céu incerto.
O arquitecto Manuel Ferreira sobe para a sua carrinha, apoiado apenas no volante. Tem uma prótese na anca que vai ser substituída, anda de bengala e custa-lhe.
- Fora isso, estou óptimo. Desculpe a carrinha estar suja, mas é de andar na castanha.
Aos 82 anos, vozeirão, cabeça límpida.
Arrancamos para Palácios, a 15 quilómetros. É o tempo da história se ir recompondo.
- O António Reis já me conhecia das Belas-Artes do Porto, no grupo do António Quadros, do José Rodrigues. Isto, em 1955, 56. Depois vim para Bragança dar aulas, casei, e qual não é o meu espanto quando me aparece o Reis: "Preciso da Casa de Palácios." E eu disse: "Sim senhor, vamos lá fazer o filme."
E além da casa, foi guia, conselheiro, pai da criança protagonista (o Luís), e fugazmente actor.
- Apareço num bailarico em Rabal a tocar guitarra portuguesa. O Manuel Brasileiro toca violino, o meu irmão viola e eu guitarra.
Passamos agora Gimonde, a ponte românica à esquerda que Luís e Armando atravessam. No filme só tem árvores de um lado e do outro. Agora, casas.
- Há ali uma capela feita pelo Liló que vem numa revista italiana e naquele livro da arquitectura contemporânea - aponta Manuel Ferreira.
Liló é como a família chama a Luís. Arquitecto como o pai, assina Luís Ferreira Rodrigues. A capela é um paralelepípedo branco no cimo de uma colina.
Depois, a vegetação adensa.
- Há dois anos fizemos aqui uma batida e saíram 28 javalis.
Carvalhos, choupos, freixos.
- Há aqui um rio, o Maçãs, que era quase só meu. Andámos durante anos, eu e o meu irmão, a tirar de lá trutas. Há dois anos secou por completo. O javali andou ali a fuçar, às minhocas.
Manuel Ferreira é homem de pesca, de caça, de ir à castanha, a tudo o que aqui se dá. Mas também foi presidente da Câmara de Bragança a seguir ao 25 de Abril.
Entramos na aldeia de Babe. Que é isto do lado esquerdo?
- São as placas do Tratado de Babe, também feitas pelo Liló.


