A coreógrafa alemã Pina Bausch morreu hoje aos 68 anos. Considerada um dos nomes mais importantes da dança contemporânea dos século XX, a autora da celebrada peça "Café Müller" terá sabido há apenas cinco dias que sofria de cancro.
“É uma perda irreparável. Desaparece uma das grandes criadoras universais do século XX. E há algo da criação desse século e da passagem para o século XXI que morre com ela. Com ela aprendi muito, inclusivamente para o meu cinema, ao nível da montagem, da utilização da música e dos sons. Ao ver como as ideias se iam montando e surgindo na sua cabeça. Vai-me ser difícil fazer o luto, do ponto de vista pessoal, por causa da grande amizade que tinha com ela”.
Fernando Lopes, realizador e autor do documentário “Lissabon Wuppertal Lisboa” (1998)
“Pina Bausch deixa um reportório absolutamente invulgar e único; é uma das artistas e autoras mais criativas do século XX, cuja obra ultrapassa largamente o domínio da dança. Um dos aspectos mais notáveis é ela ter começado pela dança tradicional e, depois, ter ultrapassado todas as fronteiras, tornando-se numa das heroínas da cultura do século XX. É uma obra atravessada por um grande humanismo, no modo como retrata as contradições da natureza humana, e no olhar sábio que lança sobre o homem e sobre a mulher”.
António Pinto Ribeiro, ensaísta e consultor da Fundação Gulbenkian
"Pina Bausch marca todo o discurso a partir do final dos anos 1970 e nós todos somos de algum modo filhos e netos [da sua obra]. (...) Se hoje estamos com uma linguagem de dança emancipada, com um discurso de autor e uma teatralidade em perfeita unidade com o corpo devemos à Pina Bausch"
Rui Horta, coreógrafo, bailarino e director do centro disciplinar O Espaço do Tempo
“Pina Bausch deixa uma obra imensa, com um reportório que permanece sempre vivo, porque as suas criações estão permanentemente a ser repostas e reencenadas, como ainda há poucos dias aconteceu em Paris. Isso pode ser a salvaguarda da sua companhia, a Tanztheater, composta por uma plêiade de bailarinos e colaboradores que seria uma pena e um drama perder. A sua perda é, mesmo assim, um luto pesado”.
José Sasportes, escritor e historiador da dança
“Vi-a, pela primeira vez, em 1982, num espectáculo em Londres, e pude conhecê-la pessoalmente. Ficámos amigos desde essa altura. Ela deixa um legado importantíssimo, inacreditável mesmo, principalmente na revolução que faz na linguagem da dança e do teatro, e na aproximação entre ambas.”
Jorge Salavisa, director artístico do Teatro S. Luiz
"Em 2000, tive a oportunidade maravilhosa de estagiar um mês em Wuppertal na Companhia Pina Bausch, acompanhando o ritmo intensíssimo – manhã, tarde e noite – do seu trabalho. Para além do muito que aprendi com ela, das muitas perguntas que lhe fiz, sem dúvida a lição maior que me ficou para a vida foi a sua coragem. Mesmo num tempo em que estava mais do que consagrada, procurava sempre o que não tem rótulo, nem sequer nome. Recomendou-me à chegada: 'nunca me digas que uma parte está bonita, senão já não a posso usar' – porque buscava o inominável. Estive em situações de ensaio geral em que todos os seus bailarinos e colaboradores chegavam ao pânico mas ela mantinha aquela misteriosa luz (densa, penetrante), com que ia dizendo segredos a uns e outros, e no dia seguinte se provava que estava certa. Mal podemos imaginar a coragem que foi necessária para romper com as linguagens existentes na dança, romper com quase todos da própria companhia que criara e que em 1976 gritavam no palco revoltados contra o que ela os estava a levar a fazer, e então, só com alguns, num pequeno estúdio, ela mostrou como havia realmente mais um caminho novo para a dança e para o teatro, graças ao seu génio e ao do seu companheiro Rolf Borzik. É isso que muitas vezes faz a diferença: além do talento, a coragem."
Paulo Filipe Monteiro, actor, encenador, guionista, professor na Universidade Nova de Lisboa


